MILKSTAPE: Hold The Girl, mas deixe-a livre

(Foto: Rina Sawayama/Divulgação)

Ao explicar o título do seu segundo álbum de estúdio, Rina Sawayama afirmou em entrevista que ele surgiu durante uma sessão de terapia. Hold The Girl seria uma referência a tentativa de entender a pessoa que ela era quando mais jovem. Entretanto, mesmo que a voz de XS não tivesse explicado o significado por trás do nome deste trabalho, ficaria claro para qualquer um: essa pessoa se consulta com um psicólogo.

Escrito e concebido durante a pandemia de covid-19, o sucessor de SAWAYAMA tinha um legado elevadíssimo para carregar. O disco de estreia de Rina foi um dos mais aclamados de 2020, agregando uma nota de 89 no Metacritic e saindo em várias listas de melhores do ano, como a da NME e da Consequence of Sound.


As expectativas para o que a cantora traria logo em seguida eram altas e ela parecia ser o tipo de artista disposta a continuar aperfeiçoando sua experimentação, o que não aconteceu com Hold The Girl.


(Foto: Capa do álbum "Hold The Girl")

Longe de ser um álbum ruim, mas também longe de superar o seu antecessor, este é um trabalho que vai fundo no pop e no que havia de menos interessante em outros lançamentos de Rina. 


Algumas características já conhecidas da britânica ainda estão aqui: os múltiplos gêneros musicais explorados, os vocais explosivos, o amor pelo pop dos anos 2000, letras sobre traumas geracionais e uma devoção a Lady Gaga. Ao último elemento da lista, trago um destaque, porque as comparações não são à toa: Hold The Girl de fato parece uma tentativa de juntar as guitarras elétricas e o stadium rock de Born This Way com o eletrônico noventista e “Y2K” de Chromatica.


O resultado dessa mistura é uma perda, ainda que pequena, da identidade e da estranheza fenomenal que Sawayama costumava trazer em suas músicas. Aqui, ela foi fundo no pop, no mainstream e no que está sendo feito por todos da indústria no momento. Isso também pode ser visto quando as referências musicais vêm do rock.


Enquanto em SAWAYAMA, tínhamos a inesperada STFU!, uma faixa nu-metal com claras inspirações em bandas como Korn, Hold The Girl entrega mais músicas de pop rock e pop punk em 2022. Como se já não tivéssemos o bastante.


Parece que todo artista crescido nos anos 2000 precisa dizer que ouvia Green Day e Avril Lavigne quando adolescente. Em pouquíssimo tempo, essa ressurreição já parece esgotada e saturada. Meu voto de perdão para Rina, neste quesito, é dedicado à canção Catch Me In The Air, que poderia ter vindo do catálogo de Kelly Clarkson ou da Katy Perry pré-Teenage Dream e funciona bem dentro da proposta apresentada.




Outras como Frankenstein, que parece ser uma filha perdida do HOLY FVCK de Demi Lovato, caem na mesmice e no mar de músicas iguais a esta que saíram neste ano.


Tematicamente, Hold The Girl é mais conciso. Suas letras giram em torno de perdão e desconstrução de traumas geracionais relacionados a imigração, vivência LGBTQIA+ e gênero. Embora, por vezes, Rina soe como se estivesse prestes a lançar um livro de autoajuda, na maior parte do disco, suas confissões exalam sinceridade, coragem e muita força.


Em uma de suas composições mais sensíveis até o momento, Send My Love To John, ela evoca no eu lírico uma mãe imigrante que pede perdão ao filho gay e, finalmente, demonstra o apoio que ele sempre precisou. Em três minutos e 24 segundos, entendemos perfeitamente a complexidade da relação entre uma pessoa que aprendeu a ultrapassar os limites da sua dura realidade através da abundância do amor materno. O perdão não é só aquele que é solicitado pela mãe, mas também o que quem escuta a música concede a ela, uma figura que reconhecemos em tantos rostos por aí.



Os dois primeiros terços do álbum têm seus altos e baixos, mas são os momentos mais divertidos e fortes dele. É impressionante como mesmo com partes da sua identidade musical dissolvidas em prol de um som mais mainstream, Rina consegue ser uma força da natureza dentro do pop.


O primeiro single, This Hell diverte e cativa, enquanto a faixa-título, Hold The Girl, nos faz querer cantar junto de uma multidão imensa. Outro destaque é Forgiveness, que merecia ter sido trabalhada como single e definitivamente é uma das melhores canções do álbum.


Um erro cometido, talvez pela tentativa de tentar terminar com um clima mais otimista, foi colocar To Be Alive para encerrar o disco. Além de não ser uma boa música, ela é antecedida por Phantom, que tem força suficiente para “fechar as cortinas” com grandeza.


Ainda assim, com defeitos e concessões artísticas para conseguir se consolidar no cenário pop, Rina Sawayama entregou um dos melhores trabalhos do ano até agora. Mesmo não estando à altura de SAWAYAMA, Hold The Girl tem o seu valor e qualidade. Nele, a mistura de gêneros musicais é mais confusa, mas ainda assim demonstra a capacidade que a artista tem de ser eclética e versátil. 


A espera pela elevação experimental de Rina, pelo jeito, continua. Entretanto, é possível apreciar essa manutenção do que já conhecíamos dela como uma espécie de projeto de cura, autoconhecimento e libertação de um talento único na música contemporânea.


Faixas de destaque: Send My Love To John, Forgiveness, This Hell.

Nota: 8/10.


Artista: Rina Sawayama

Álbum: Hold The Girl

Ano: 2022

Selo: Dirty Hit

Gênero: Pop, pop rock


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EM CARTAZ: A ÓRFÃ 2: A ORIGEM (2022)

(Imagem: Cena do filme A Órfã 2: A Origem, de 2022)


Uma continuação do filme A Órfã, de 2009, sempre foi muito comentado no meio. Várias histórias eram especuladas de como continuar, pois ao final do filme, ela tem um fim definitivo. Mas se tratando de uma obra de suspense/terror, tudo é possível. A escolha feita aqui, foi um prequel, e assim 13 anos depois, chegava aos cinemas Orphan: First Kill ou A Órfã 2: A Origem.


Trazendo novamente no papel título Isabelle Fuhrman, que viveu a encapetada Esther, a criança que era na verdade uma adulta nos seus 30 anos. O que causou frenesi antes, que era a revelação de que havia algo de estranho com Esther, aqui já não é mais nenhum segredo. O filme já se tem início com esse acontecimento sendo narrado, de crimes cometidos em outrora pela psicopata.


Juntando-se ao elenco, temos Julia Stiles e Rossif Sutherland, como os futuros papais da figura. Na trama, temos a origem da “Esther”, a menina que a Leena Klammer (nome verdadeiro da nossa vilã) toma o lugar. Desaparecida, ela usurpa a identidade e vai parar na casa dessa família que aparentemente vive com a dor da perda, mas que esconde grandes segredos.


Memes a parte, é engraçado e interessante ver as fórmulas utilizadas para infantilizar e encolher a Fuhman. Antes com 12 anos, agora a menina tem 25 anos e seus 1,60 de altura, diferente do que se espera de uma criança de 10 anos de idade (que é o que ela deveria aparecer). Seja pelo filtro escolhido, que acaba por deixar o rosto da atriz meio embaçado, as roupas extremamente infantilizadas, ou a Maria Chiquinha, tudo contribui para o que o filme acaba se tornando: um bom camp.


O plot twist do filme contribui para tudo se tornar extremamente suculento. Quando Tricia (Julia Stiles) se revela tão psicopata quanto a Esther/Leena, as coisas aumentam em um nível que quando eu descobri isso, fiquei com a boca aberta. Os ápices de loucura e exagero, e sua irmandade de sangue com o filho (Matthew Finlan), torna tudo muito prazeroso de se ver. Como sempre, o personagem e figura paterna, serve apenas como catalizador emocional da Leena, que precisa loucamente satisfazer seus prazeres sexuais. E nada melhor do que um homem parrudo de quase 2 metros de altura, não é mesmo?


Toda a dinâmica entre a Isabelle Fuhmann e a Julia Stiles movimenta o filme de maneira incrível. Elas são definitivamente a força que move tudo até seu clímax final. Deixando a nostalgia e a imagem que o filme original deixou, que acabou se tornando cultuado durante esses anos, A Órfã 2 não é um filme ruim, mas não é nenhuma obra prima. A escolha por seguir algo que ocorreu antes, não prejudica em nada. Tem furos que a gente engole e o saldo final acaba sendo tão divertido que nem isso afetou o apreço que senti ao finalizá-lo.


Devo dizer que a escolha de um diretor tão ruim como o William Brent Bell, que veio de bombas como Boneco do Mal e sua continuação, ajuda a dar sentido à existência de tudo o que foi apresentado. Se você for aos cinemas esperando assistir o melhor filme de terror do ano, vá assistir Não! Não Olhe! ou espere Halloween Ends, que já já sai. Se quer ir se divertir, sair do cinema com os amigos comentando as loucuras de um filme, esse é sua escolha.


Nota: 8


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As Vantagens de Ser Invisível e todo o impacto na minha vida

(Imagem: Divulgação)


Quando a gente se apaixona por um livro, é inevitável pensar na sua transposição para uma obra live-action. Ao mesmo tempo que criamos nossos fancast e imaginamos as cenas que gostaríamos de ver na telona, o medo de ver tudo sendo destruído pela mediocridade de Hollywood é tremenda. São vários os casos, onde o filme não chega nem na orelha do que o original propôs. Mas, quando isso ocorre de forma magistral, é algo que mexe com a vida do bookstan.


Quando eu li As Vantagens de Ser Invisível, eu já não era aquele adolescente de início de vida, mas também não era nenhum adulto. Tinha acabado de terminar o ensino médio, sem saber o que fazer da vida após isso. Tinha uma ambição de vida, mas não sabia se isso seria o que iria fazer. Estava gatilhado emocionalmente, sem saber quem eu era e se seria capaz de seguir. Eu estava e era uma bagunça. Quando finalizei o livro, encontrei muito do que estava conectado ao que estava ocorrendo comigo e como eu estava me sentindo.


Quando eu assisti a adaptação cinematográfica, encontrei um grupo de amigos ali onde tudo fazia sentido. Ninguém era perfeito e todo mundo estava passando por alguma merda. De certo modo, não existe final feliz pois a vida continuava e muita merda ainda iria ocorrer. Dirigido por Stephen Chbosky, o autor do livro, que também roteirizou a obra, As Vantagens de ser Invisível é uma obra-prima tanto da literatura, quanto do cinema jovem adulto.


Estrelado por Logan Lerman, Emma Watson (em seu 2º filme pós saga Harry Potter) e Ezra Miller, como o trio de protagonistas. Passando por vários temas que podem dar gatilhos a muita gente, o filme se passa em 1991 e traz Charlie (Lerman), como um adolescente que desde pequeno luta com a depressão. Saindo recentemente de uma clínica de saúde mental, ele é um garoto extremamente tímido que está entrando no 1º ano (ou freshman year), sem amigos, ele se conecta logo com o professor de Inglês (Paul Rudd).


Durante um jogo da escola, Charlie faz amizade com Sam (Watson) e seu meio-irmão Patrick (Ezra Miller). A partir desse momento, a vida dele começa a se movimentar e ao mesmo tempo ele tenta lutar contra um trauma que o afetou profundamente. Charlie frequentemente escreve cartas para essa pessoa que lhe entende e por essas cartas que conhecemos melhor nosso protagonista. Logo de início, descobrimos que seu melhor amigo, Michael, cometeu suicídio.


Durante o livro e o longa, conhecemos melhor cada personagem pela visão de Charlie e como ele consegue absorver melhor do que qualquer um ali. Ao mesmo tempo que ele se apaixona pela Sam, ele tenta lidar com suas dificuldades de socialização. Sua amizade com Patrick, que é gay e namora escondido um jogador do time da escola, o faz entender bem como funcionam alguns de seus sentimentos. Assim como o relacionamento familiar, formado pelos seus pais (Kate Walsh e Dylan McDermott) e sua irmã mais velha (Nina Dobrev), que vive um relacionamento abusivo, onde Charlie não compreende o porquê dela mantê-lo.

(Imagem: Trecho do filme As Vantagens de Ser Invisível)


A discussão nunca se torna rasa e a transposição disso para tela foi de enorme abrangência, sendo bem trabalhada e transformando cenas do livro com um efeito duradouro. Tudo ali é real. Você sente, vive e respira aquilo. Você se encaixa em alguém ali. E mesmo que doa, ela tem que ser sentida. A imagem de Charlie de ser esse garoto solitário, invisível que encontra sua turma e que ali, ele pode ter um apoio. Mesmo com tudo ocorrendo na sua cabeça, ele é alguém amável, protetor, um ótimo amigo. 


A grandeza de As Vantagens de Ser Invisível perpetua até os dias atuais, onde a discussão sobre a saúde mental é maior do que foi em 2012. Onde os casos de transtornos psicológicos e a grande depressão social, se tornou debate de saúde pública, principalmente nesse mundo pós pandêmico. Outros filmes até tentaram, mas poucos alcançaram a importância do que ele conseguiu.


Outro ponto positivo é a trilha sonora. Não poderia sair desse texto sem citar esse tópico. De The Smiths à New Order, sendo marcada pela emblemática e sublime Heroes do camaleão do pop, David Bowie. Tudo funciona aqui como fosse uma poesia suplicante e refulgente. Além claro, da notória cena em que recriam o cultuado filme de 1975, Rocky Horror Picture Show, em uma dos lances mais divertidos.


Após 10 anos, o culto à As Vantagens de Ser Invisível só aumenta. Sua difusão nesse mundo virtual só mostra a força da obra do Stephen Chbosky. É um daqueles livros e filmes que merece ser lido e relido, seja por você jovem que está perdido ou por você adulto que passou por tudo e está aqui ainda. E nunca esqueça, que você só precisa de um momento para que você se sinta infinito e tudo valer a pena.


Nota: 10
Onde assistir?: Netflix, HBO Max, Globoplay e Stazplay

P.S.1: Queria dedicar esse texto a todos, que como eu, passaram/passa por alguma dificuldade psicológica. Você não está sozinho.

P.S.2: "Amanda, tá tocando musica boa" <3 


(Imagem: trecho do filme As Vantagens de Ser Invisível)



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Praias, histórias fictícias e casas emprestadas: qual o saldo da pandemia para o intimismo no pop?

(Imagem: Taylor Swift/Divulgação. Lorde/Divulgação. Harry Styles/Better Homes and Gardens.)


Querido diário que não é diário,


Quando a pandemia de covid-19 forçou o mundo inteiro a ficar dentro de casa, a arte foi o combustível que todos precisavam para se manter minimamente sãos durante tempos tão difíceis.


Algumas pessoas aproveitaram o período para reassistir e voltar para obras favoritas da vida que passavam a sensação de conforto e de lar. Outros foram atrás do maior número de coisas novas possíveis. Mas algumas experiências culturais foram coletivas como, por exemplo, os lançamentos novos de artistas de quem já éramos fãs.


O ano de 2020 nos presenteou com obras primas do pop como Women in Music Pt. III das irmãs HAIM e o estrondoso SAWAYAMA, primeiro álbum de estúdio da britânica Rina Sawayama. Entretanto, esses dois  álbuns têm em comum o fato de serem relíquias de um mundo pré-pandêmico.


(Foto: Rina Sawayama/Hendrik Schneider)


Assim como os produtores musicais que junto com artistas pop como Dua Lipa, apostaram que 2020 seria um ótimo ano para o lançamento de um álbum feito para as pistas de dança, esses trabalhos foram vítimas de um acaso, de um “bad timing”. 


Todos esses discos foram criados em um contexto e em um mundo que não conhecia a covid-19. A construção deles veio de um contexto antes do isolamento social.


E se você leu até aqui esperando que eu fosse citar como contraponto para esse cenário, o Folklore de Taylor Swift, acertou em cheio. Escrito, feito e lançado durante a pandemia, ele será lembrado como um dos grandes momentos da cultura pop daquele período. Não só por tudo que envolve a sua criação, mas pelo seu conteúdo em si.


Folklore é um álbum introspectivo, discreto, intimista e simples no melhor sentido da palavra. Todos esses adjetivos podem ser utilizados como auxiliares do que vêm à mente de uma pessoa quando ela pensa em isolamento. Mas falar qualquer coisa sobre o oitavo álbum de estúdio de Taylor Swift a essa altura do campeonato seria chover no molhado.


Porque existe um outro ponto que ele e outros discos que ainda aparecerão por aqui têm em comum: serem sucessores calmos de “irmãos mais velhos” barulhentos e coloridos.  É um efeito natural da cultura como um todo que haja uma “calma após a tempestade” no quesito estético e conteudístico da arte. O oposto também.


Logo após o lançamento do psicodélico e experimental Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), os Beatles apresentaram ao mundo um retorno às suas origens do rock e do blues com o sóbrio Abbey Road (1969). Na virada dos anos 60 para a década de 70, a música popular brasileira veria o minimalismo da bossa nova dar lugar a explosão sensorial e colorida da Tropicália. E para voltar ao território do pop, em 2016, Lady Gaga deixou para trás os excessos e entrou na sua era country com Joanne. A capa deste álbum é o mais próximo que a mother monster chegou de tons pastéis e simplicidade na sua carreira.


(Foto: Beatles em imagem de divulgação do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Bland/Apple Corps)


Colorido e preto e branco, neon e bege, alto e baixo… A história da música parece ser feita de revezamentos, ações que geram reações opostas não tão imediatas assim. A pandemia parece ter sido responsável por mais uma delas:

A da introspecção que sucede a exposição. 


E foi assim com Taylor. Mas também com Lorde e Harry Styles. De maneiras muito diferentes, os três tiveram uma sucessão de álbuns muito semelhante. Deste trio, um foi extremamente bem sucedido, outro falhou e um terceiro ficou no detestável meio termo. Mas quem é quem nessa história?



Lover vs. Folklore 


(Imagem: Capas do Lover e do Folklore)

Após o bagunçado, por vezes lúcido, mas eternamente de baixa qualidade Lover (2019), Swift lembrou da força que a sua composição tinha e fez uma viagem a um gênero musical irmão do seu já conhecido country. 


É importante ressaltar que esse “ressurgimento” do folk dentro do pop não é de responsabilidade dela. Lana Del Rey com o seu Norman Fucking Rockwell (2019) merece os créditos por ter sido um catalisador desse gênero nos dias de hoje.


Esteticamente, Folklore também é tudo que Lover não foi. Enquanto o primeiro tinha um encarte e fotos de divulgação majoritariamente em preto e branco, produção simples e lista de faixas toda em letras minúsculas, o segundo foi anunciado ao mundo com ME! e lembrava algo que poderia ter saído de uma cena de um filme da Barbie.


Lover parecia um “esforço forçado” de Taylor para se distanciar do peso de Reputation. Como tudo que ela toca é ouro, isso não afetou o lado comercial do lançamento: seu álbum arco-íris bateu recordes de venda e streamings ainda em 2019. 


Folklore foi  sucessor de uma chuva neon, do “eu” em letras maiúsculas e trouxe um mundo em preto e branco forçado pelo isolamento, contando histórias fictícias. Mas acima de tudo: ele é fruto de uma introspecção forçada por um cenário maior do que quem o criou.


O que não é o caso do Solar Power.



Melodrama vs. Solar Power


(Imagem: Capas do Melodrama e do Solar Power)


O segundo álbum de estúdio de Lorde, Melodrama (2017) é um dos raros casos de obras que já nascem clássicos. Paradoxalmente, é muito mais dançante e triste do que o seu antecessor minimalista, Pure Heroine (2013), o que também parece ser outro caso de revezamento no pop.


Um trabalho como esse inevitavelmente cria uma pressão enorme para que o artista faça algo novo à altura. No caso de Lorde, os intervalos considerados longos entre os seus discos não ajudaram na criação da expectativa por parte dos fãs e também dos críticos.


A neozelandesa parece ter lidado com isso em sua famosa viagem para a Antártica, onde percebeu que sentia tanta falta do calor e do sol, que resolveu criar todo o conceito de um álbum em cima disso.


Se comparado ao Melodrama, Solar Power (2021) pode ser considerado minimalista. Seu irmão mais velho trouxe uma narrativa de “chorando enquanto danço”, muito bem executada em tudo que o rodeava. As próprias fotos promocionais contavam essa história, através de cores neons e balões de hélio coloridos.


Solar Power levou a jovem que ficou famosa por só usar preto e batons escuros à praia. Sonoramente, parecia ser um primo mais novo de outros trabalhos pandêmicos como o próprio Folklore e Chemtrails over the Country Club (2021). Mas a sensação de intimismo aqui veio de uma escolha da própria Lorde, com a sua viagem ao Polo Sul da Terra para fugir das futilidades e assédio da indústria que ela tanto parece odiar.


Este é um ponto importante para estabelecer um dos motivos para o fracasso de Solar Power. 


Pure Heroine, na sua utilização constante do pronome “nós”, trazia experiências coletivas de jovens que cresceram longe dos centros de desenvolvimento estadunidenses e europeus. E Melodrama era mais um clássico álbum de término e sofrimento dentro da música pop (quer tema mais universal que este?).


Lorde se consolidou nos seus trabalhos que falavam sobre as inquietudes e sofrimentos de um coletivo que nem sempre se sentiu representado. Com o seu terceiro disco, ela deixou essa tendência de lado, refletindo experiências particulares dela que nos eram totalmente distantes. 


Até nos momentos em que cantava sobre algo que poderia ser relacionável isso foi presente: Lorde vivenciou a pandemia na Nova Zelândia, um país que lidou responsavelmente com a covid-19 e teve um retorno à "normalidade" mais rápido que o resto do mundo.


A introspecção do Solar Power é particular e fruto de uma decisão da artista. É por isso que, quando comparada a outros trabalhos semelhantes lançados no período, parece artificial.


E por falar em artificial…



Fine Line vs. Harry’s House


(Imagem: Capas do Fine Line e do Harry's House)



Desde o título, Harry’s House (2022) já demonstrava o caráter pretensioso do seu autor: uma referência a uma música de mesmo nome da lenda do folk Joni Mitchell. Se era atenção que Harry Styles queria, ele conseguiu. Já que até o perfil oficial da canadense no Twitter reconheceu o esforço do ex-One Direction.


A questão é que o isolamento e a profundidade desse trabalho param por aí. No título mesmo. O pop anêmico das canções feitas durante a pandemia tenta emular a sensação de intimismo anunciada pela referência a uma canção clássica do folk, mas falha. No quesito qualidade, a casa do Harry está mais para um porão.


Quando a voz de As it was se gabava pelo apoio de Stevie Nicks e não era discreto na sua inspiração vinda de Fleetwood Mac e David Bowie, seu trabalho era muito mais convincente.


Fine Line (2019) trouxe cor, soft rock, frutas e pop de qualidade. Era de se esperar que alguém que já havia entregado referências bem trabalhadas conseguisse emular isso mais uma vez. O que não aconteceu. 


O minimalismo de Harry’s House permaneceu no superficial e não atingiu o que Swift conseguiu com Folklore: um sentimento genuíno de recolhimento de um artista.


A quebra do colorido para o mutado não se transmitiu em outras camadas além do que a gente vê. E o resultado foi um trabalho que, se perdesse 5 faixas da sua tracklist, seria muito mais bem sucedido em sua proposta.



O que vem aí? 


Muito se especulava sobre qual seria a marca que a pandemia deixaria na produção musical. Pelo jeito, o bucolismo e o escape para um local mais discreto foram as sensações que dominaram as tendências estéticas e sonoras do período.


Tanto que, artistas que vinham de trabalhos dançantes, coloridos e extravagantes, entregaram obras calmas, em bege e minimalistas durante o isolamento social (ou influenciadas por ele). A pergunta agora é como a música refletirá a reabertura e a saída dos tempos da covid-19.


Por enquanto, temos alguns prenúncios do que poderá refletir esse momento. Álbuns como Motomami (Rosalía), Crash (Charli XCX) e Renaissance (Beyoncé), todos lançados em 2022, parecem ser um suspiro de “finalmente” com suas canções animadas e feitas para casas noturnas.



(Foto: Rosalía/GQ/Jack Bridgland)


Será a alegria do retorno do contato o marcador da música pós-pandêmica? Ainda é cedo para dizer.


O que já podemos definir a partir desses trabalhos, entretanto, é que o pop está oferecendo mais um revezamento: o da solidão introspectiva para um coletivo festeiro.



 

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RESENHA LITERÁRIA: Verity (2018)

(Foto: Adan Cavalcante)

"Nunca há um momento no processo de escrita em que eu sinta que consegui atingir o que eu queria, ou que estou escrevendo algo que as pessoas precisam ler. "

Uma das autoras mais faladas ultimamente nas redes sociais, e com toda certeza queridinha do momento, é a Colleen Hoover. Com suas histórias eletrizantes, ela vem conquistando um grande público. Não é de se espantar a quantidade de leitores que divulgam seu trabalho, e já teve algumas obras sendo bastante discutidas e difundidas em todas as redes sociais, sendo sempre tópico de discussões.

Após várias dicas de qual livro da autora seria meu primeiro, ponderei bem minha escolha e decidi por Verity, lançado em 2018. Foi uma escolha calculada, pois muitas pessoas minhas alertaram dos gatilhos que sua obra entrega, e aqui não foge muito da regra, sendo um livro extremamente denso, com situações de tirar o fôlego e que podem deixar uma pessoa de estômago fraco bastante incomodado.

Mas, do que diabos se trata esse livro? Já avisando que possíveis spoilers podem estar salpicados dentro do texto. A história é contada a partir da visão da Lowen Ashleigh, uma escritora low profile que acabou de passar por uma perda, está sendo despejada e está vivendo um bloqueio de escrita. Ao conseguir uma entrevista de emprego, ela se anima no que pode ser uma chance de encaminhar sua vida. O que ela não esperava era que o destino já iria brincar com ela logo nas primeiras páginas, fazendo-a passar por outro trauma.

Ao presenciar um acidente bem no caminho da entrevista, ela é auxiliada por um homem bem abençoado que a lhe dá total apoio, e sua camisa. Toda estrutura das cenas já nos faz prever o que está por vir, mas mesmo assim, a gente quer saber como tudo vai se desenrolar. Toda a entrevista é um mistério e ela não sabe de muita coisa. Ao se direcionar ao prédio, ela percebe que o rapaz segue no mesmo caminho. Claro, não é possível que isso seja coincidência.

Óbvio que esse cara não seria apenas um qualquer e acaba sendo o motivo dela estar ali. Jeremy, um cara forte e super atrativo, é casado com uma das autoras mais bombadas do momento, Verity Crawford. A razão da reunião vem de um possibilidade de ouro: Lowen iria auxiliar na finalização da saga de sucesso que, por motivos de saúde, Crawford não pode terminar. A verdade é que a autora se encontra em cama, em um estado que a impossibilita de continuar a conceber sua obra.

A nossa protagonista não aceita logo de primeira, pois não quer trabalhar em algo que não é seu. Mas as contas se acumulam e o sorriso do Jeremy também a ajuda a aceitar mais rápido. Criando certas barreiras, pois tem consciência que independente da situação da esposa, ele é um homem casado, Lowen entra na jogada e aceita o desafio. Ela viaja até a mansão onde a família Crawford mora e se instala na residência.

Em meio aos livros e o luxo, um manuscrito é encontrado e a partir desse momento, a vida de nossa protagonista E NOSSA PERCEPÇÃO DE TUDO vira de cabeça para baixo. Uma série de acontecimentos são narrados de forma seca e sem pudores por Verity, onde a cada parágrafo vamos conhecendo mais e mais os segredos sujos que a autora esconde. Mesmo sabendo que não deveria estar lendo aquilo, Lowen se viu obrigada, primeiramente, para entrar na mente da sra. Crawford, mas também porque algo muito estranho não está certo ali.

Em cada página que a nossa protagonista vai se adentrando, a gente vai ficando chocado. De morto cortante e direto, Verity não narra apenas as cenas tórridas de seu relacionamento, mas também todas mágoas, anseios e… assassinatos? Alguns traumas também ocorrem naquela família que, aos poucos, vão se mostrando como uma sucessão de acontecimentos bizarros. Além disso, aparentemente Verity não está tão doente quanto aparenta.

Em suas 320 páginas, Hoover vai prendendo mais e mais o leitor, fazendo com que você não consiga parar de ler, pois deseja loucamente saber o que está acontecendo dentro daquela casa, com aquelas pessoas e naqueles manuscritos. Ela conduz tudo com maestria, onde ninguém ali é perfeito. Todos podem ser culpados, cheios de demônios a espreitas. Com algumas cenas que fazem você congelar a espinha e um final polêmico que perdura em uma discussão até hoje.

Para a primeira leitura da autora, confesso que conseguiu conquistar e me deixar ansioso por suas outras obras que já estão no gatilho aqui para serem apreciadas. Alerto que não é uma leitura leve e muitos momentos podem incomodar mesmo. Consegue trabalhar o estilo thriller, onde a qualquer momento você espera que algo aconteça. É inovador ou revolucionário? Não, mas naquelas 320 páginas você encontra uma boa leitura.


Nota: 9/10
Onde Comprar? Amazon 
Ano: 2020
Editora: Galera Record
Páginas: 320


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Autoria de Clube do Café da Manhã. Tecnologia do Blogger.