Escola Base e o que o jornalismo ainda não aprendeu com as notícias falsas.

(Imagem: Divulgação/G1)

Acompanhando a onda de produções sobre investigação criminal na cultura pop, chegou no Globoplay o documentário com o jornalista Valmir Salaro que revisita a história do caos criado por uma falsa acusação de abuso infantil. Um dos casos mais notórios da história do jornalismo contou com uma série de erros da polícia e, principalmente, da imprensa. “Escola Base - Um Repórter Enfrenta o Passado” é a libertação que Valmir Salaro precisava após 28 anos engasgado com um erro. Junto com Salaro, o documentário expõe a culpa carregada por outras dezenas de profissionais que agiram de forma errada - e também as consequências drásticas que esses atos trouxeram à vida dos acusados.

O ano era 1994 e um repórter da Globo havia acabado de receber uma ligação de uma mãe desesperada que afirmava que seu filho havia sofrido abuso sexual em uma escola no bairro da Aclimação, em São Paulo. O repórter era Valmir Salaro, que imediatamente foi até a delegacia onde o caso estava sendo registrado. Ao saber que a criança havia sido encaminhada para o IML para perícia, Salaro esperou até o dia seguinte; e então, deu o furo de reportagem em um dos horários mais caros da televisão e decretou o começo do fim da vida dos envolvidos.

A partir daquele dia, durante uma semana inteira, o país ouviu, leu e consumiu os mais absurdos relatos sobre os crimes ocorridos na Escola Base. O que poucos sabiam é que, alguns dias antes, a denúncia já havia chegado à polícia e mobilizado buscas na escola e também em apartamentos, sem nenhuma prova concreta. O pequeno detalhe que aproxima 2022 de 1994 é simples: a histeria coletiva que não é freada pela imprensa e nem pela polícia. Ao perceberem a “não-ação” da polícia causada pela falta de provas, as mães que fizeram a denúncia resolveram expor o caso e criaram um verdadeiro circo midiático.

A fogueira ainda foi alimentada pelo delegado Edélcio de Lemos, que determinou a prisão de Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada - donos da Escola Base - mesmo sem provas contra a dupla e exames do IML inconclusivos. Junto com o casal, outras quatro pessoas tiveram as vidas destruídas enquanto o sensacionalismo das reportagens alimentava a indignação social. O final, talvez, justifica a fama desse ser o maior crime da imprensa brasileira: todos os acusados eram inocentes.

O caso ainda é referência permanente de debate e análise nas faculdades de jornalismo pelo Brasil. Herdeiro direto do impeachment de Fernando Collor, o episódio surgiu em uma época em que o país estava saturado de notícias sobre política; um contexto próximo ao que vivemos nos últimos anos. Provavelmente essa seja mais uma semelhança entre 2022 e 1994: o terreno fértil de uma população que anseia por polêmicas. Com o julgamento social sendo mais influente do que um julgamento jurídico, a capacidade de moldar a visão da população para um fato mostra uma mídia ainda mais poderosa quando trabalha com meias-verdades.

O documentário exibe uma poderosa reflexão sobre as fake news e a fragilidade do processo de apuração das notícias da época. Apesar do jornalismo sempre contar com tragédias, os impactos dos erros podem ser maiores do que elas. O documentário também nos desperta uma dúvida: se os crimes fossem reais, seria justo usarmos o jornalismo como forma de justiça contra os culpados, provocando tanta destruição em suas vidas?

O ano de 1994 não contava com o poder que a internet tem hoje e, talvez, isso tenha minimizado os efeitos colaterais das denúncias falsas - ainda que tenham sido destruidores. Como questiona Paula, uma das donas da escola acusadas injustamente, “mas por que só agora?”

Talvez o jornalismo brasileiro tenha se retratado tarde demais.

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Entre a passarela e o meio de campo: qual a relação entre a moda e a Copa do Mundo?

 
(Seleção do Senegal chega ao Catar. Foto: Reprodução/Mark Metcalfe FIFA por Getty Images)

A Moda é uma forma de se comunicar, de se expressar e de se posicionar no mundo. Isso vale para mulheres, homens, não-binários, pessoas cisgêneros, transgêneros, crianças, enfim, para todo e qualquer ser humano. Diariamente, as nossas escolhas de roupa e estilo podem comunicar algum tipo de mensagem, principalmente quando fazemos isso de maneira proposital.

A Copa do Mundo 2022 teve início no último domingo (20), mas os olhos já estão voltados para as 32 seleções mundiais escolhidas há algum tempo. Na última semana, pouco a pouco os times foram chegando ao Catar, o país que está sediando o evento, e algumas seleções chamaram a atenção com os trajes que usaram no embarque e/ou desembarque.

Essa comunicação através da Moda também pode acontecer através dos acessórios, do corte de cabelo, nas cores, nos cortes, enfim, são vários aspectos que podem ser utilizados com a finalidade de passar uma mensagem. Dito isso, além da escolha dos atletas para a ocasião de chegada no Catar ou saída de seus países, há outras situações que envolvem a moda enquanto ferramenta de comunicação relacionada ao Mundial deste ano.

As polêmicas

Antes de trazer os exemplos, acho que é importante dizer que o Catar é um país asiático, localizado na região conhecida como Oriente Médio, conhecido por ser, atualmente, o país mais rico do mundo. Sua capital é a cidade de Doha e será a única sede dos jogos que envolvem a Copa do Mundo da FIFA deste ano. O local foi uma escolha considerada polêmica e controversa desde o início, visto que o Catar é um país famoso por suas violações aos Direitos Humanos.

No Catar, as mulheres ainda são consideradas uma espécie de “propriedade”, sendo mantidas sob tutelas masculinas que as impede de tomarem as decisões relacionadas à própria vida. Outro exemplo é que o código penal do país prevê que todo tipo de sexo fora do casamento, incluindo relações não-consensuais (ou seja, estupros), são considerados crimes e as sentenças podem ser desde prisão até açoitamento ou apedrejamento da mulher, caso ela seja muçulmana. No caso de violência sexual, por exemplo, é possível que o relato da mulher seja considerado como uma confissão – de sexo fora do casamento. Juro.

Se é difícil para as mulheres cis e héteros, avalie para a população LGBTQIAP+. Lá, relações que fujam da heteronormatividade são proibidas. Mais uma vez, o código penal do Catar prevê punições para afetos e sexualidades entre pessoas de mesmo gênero que podem chegar ao apedrejamento.

A controvérsia da FIFA, portanto, foi questionada, visto que no estatuto que rege a instituição existe um artigo que assegura a proteção dos direitos humanos. Mas, nunca houve um posicionamento em relação a isso.

Além de toda essa questão, nos últimos meses e semanas foram noticiados casos de exploração trabalhistas, condições insalubres de trabalho e práticas análogas à escravidão em relação às obras no Catar para receber o Mundial de países. Sem contar com as questões ligadas ao chamado “Fifagate”, quando, em 2020, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos apontou o pagamento de propina envolvendo a candidatura do Catar para sediar a Copa deste ano. O Fifagate foi considerado como a maior investigação sobre corrupção no futebol da História, mas, na época, o comitê da Copa 2022 emitiu uma nota oficial negando as acusações.

E aí, onde entra a Moda em tudo isso?

Moda é política

Dentre as coisas que eu queria destacar em relação ao uso da Moda e a Copa do Mundo deste ano, a primeira está diretamente relacionada ao fato de se posicionar – ou não – frente a alguma coisa. Nesse caso, por exemplo, apesar de concordar em jogar no Catar, mesmo com todas as violações aos direitos humanos, atletas como Harry Kane, da Inglaterra, e Manuel Neuer, da Alemanha, afirmaram, em meados de outubro, que usariam a braçadeira de capitão da campanha “One Love”, com as cores da bandeira LGBT.


(Harry Kane, atacante da seleção inglesa. Foto: Divulgação/FA)

Quando as declarações começaram a sair, a Fifa se posicionou através de seu presidente com um vídeo em que Gianni Infantino declarava que todos eram bem-vindos ao Mundial, “independentemente de sua origem, cultura, religião, gênero, orientação sexual ou nacionalidade”. Contudo, em seguida Colin Smith, diretor de Operações da Copa do Mundo, completou a sentença afirmando que tudo que a entidade pede “é que as pessoas respeitem as normas culturais do Catar”.

Harry Kane, atacante inglês, afirmou que a ideia, ao usar a braçadeira, é passar uma clara mensagem quando o mundo inteiro estiver assistindo ao jogo, que acontece em um país extremamente conservador que foi selecionado para receber a competição de maior prestígio para o futebol mundial. O objetivo da braçadeira “One Love” é promover a diversidade e a inclusão social, mas vai de encontro às recomendações da Fifa, que possui regras explícitas que proíbem as federações de realizarem atos políticos em campo.

Para tentar resolver o “problema”, a Fifa lançou no último fim de semana as braçadeiras oficiais da competição. Existem alguns modelos para os acessórios dos capitães e foram cocriados junto com três agências da ONU, mas há algumas federações que ainda insistem no uso do item com a bandeira LGBT – o que é um posicionamento firme e importante.

Até o momento, seleções como a Inglaterra e País de Gales se mantém na iniciativa de utilizar a braçadeira “One Love”, apesar de estarem aguardando a decisão da Fifa em permitir, punir ou tomar alguma posição, de alguma forma. Outros times como Alemanha e Dinamarca também tendem a adotar o modelo, porém não há nenhuma certeza para nenhum desses grupos até o momento de entrar em campo.

Na verdade, a seleção inglesa se mostrou disposta a pagar a multa estipulada pela Fifa para a quebra da regra, pois, pelo visto, não se posicionar não é uma opção. O presidente da Football Association, Mark Bullingham, ressaltou que como não houve resposta à carta enviada para a Fifa, existe a possibilidade da equipe ser multada. “Se formos, pagaremos a multa. Achamos que é muito importante mostrar nossos valores e é isso que faremos”, declarou.


(O goleiro e capitão da seleção alemã, Manuel Neuer. Foto: Divulgação/FC Bayern München)

Em uma coletiva recente, Neuer, goleiro e capitão da seleção alemã, prometeu vestir a braçadeira “One Love” durante a disputa. “Todo torneio é uma grande experiência. Não temos medo das consequências”, disse ele na ocasião. Ele, inclusive, já utilizou o acessório durante a Eurocopa. Enquanto isso, Lloris, goleiro francês, afirmou que quando a França recebe estrangeiros, espera que eles cumpram as regras locais e respeitem a cultura deles. “Farei o mesmo quando for ao Catar”, afirmou ele, apesar da França ter se mostrado a favor da causa.

É uma questão complexa, mas o posicionamento dos jogadores, ainda que, por algum motivo, não consigam entrar em campo com a braçadeira, já ficou claro. A disposição deles para lutar por causas que merecem visibilidade já foi exposta. Inclusive, a CBF indicou que a seleção brasileira não se manifestaria – o que não choca ninguém, né? Não é à toa que somos o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+ no mundo.

O acessório é simples, mas a mensagem é clara. É firme e enfática.

Moda é cultura


Deixando um pouco as questões políticas (e polêmicas) de lado. Como mencionei lá no início, o embarque e desembarque dos jogadores no Catar também gerou um burburinho nas redes e o principal motivo foram os trajes. Claro que algumas seleções optaram por peças mais básicas, como a terceira camisa e calça ou bermuda ou em alguns casos até mesmo terno e gravata, mas sem grandes referências; enquanto outros utilizaram o momento para homenagear suas raízes.



(Seleção de Gana desembarcando no Catar. Foto: Reprodução/Tulio Puglia FIFA por Getty Images)

A seleção de Gana foi uma dessas. Na verdade, em geral, as federações africanas sempre se expressam muito culturalmente através das vestimentas. Até mesmo fora do futebol, são populações que já esperamos roupas tradicionais, cores e acessórios marcantes para a cultura local, dentre outras coisas. Aqui, os atletas utilizaram camisas e turbantes com tecidos tradicionais, assim como as cores – e a estampa de linhas. As roupas, além de confortáveis para o clima do Catar, estavam acompanhadas de um tipo de echarpe com detalhes em alusão à bandeira de Gana.

Além das cores, o echarpe do grupo possui frases como “Visit Ghana” “Beyond The Return” – essa última que é como uma continuação de uma campanha de 2019 intitulada de “Year of Return” que relembrou os 400 anos da chegada dos primeiros africanos escravizados à Virgínia, em 1619. A iniciativa quis celebrar a resiliência dos povos africanos ao longo desses 400 anos e acolher todas as pessoas que possuem origem africana e desejam/desejavam retornar para a África, especialmente para Gana.

A federação do Senegal também chegou botando banca e estilo. A escolha foi um conjunto de linho branco que conversa muito com os trajes do Catar, e do Oriente Médio em geral, garantindo boa adaptabilidade e conforto em relação ao clima desértico. A maioria complementava o look com acessórios com as cores do Senegal, contas ou colares e pulseiras em prata ou dourado mesmo. O recorte da roupa também faz uma alusão a trajes senegaleses mais convencionais, não deixando de lado à ênfase cultural também.

E, por fim, uma seleção que rendeu opiniões divididas em relação ao traje foi a brasileira, mas eu vim aqui para defender o terno cinza assinado pelo estilista nacional Ricardo Almeida. Acredito que este seja o segundo ano que RA assina a roupa social escolhida pela CBF para o embarque dos jogadores e o motivo principal é relembrar a era de ouro da seleção brasileira, associando elegância e performance.


(Foto: Divulgação/Ricardo Oliveira)

O modelo é mais despojado, os tecidos em geral são algodão e linho, com opções de gravata para a comissão técnica e um echarpe para os jogadores, deixando eles com o ar mais informal. Até então parece tudo muito comum e, aparentemente, é, mas o segredo está no forro do blazer.

Feito de viscose, ele tem a estampa paisley que foi utilizada também em 2018 para a Copa da Rússia. A ideia é que o desenho traga elementos da cultura nacional e também do país-sede do Mundial. Há aqui o uso e abuso da geometria, que pode ser também apontada como uma alusão à geometria do campo de futebol, somada a elementos indígenas e de belezas naturais brasileiras, assim como desenhos das taças da Copa do Mundo que o Brasil já soma, com detalhes que homenageiam o Catar.

O design foi todo pensado corpo a corpo para cada um dos jogadores, sendo sob medida com a ideia de ser mais “separado” do corpo diminuindo a sensação de calor que o clima do Catar vai intensificar. Além disso, segundo o próprio Ricardo, seu objetivo era transparecer na roupa a grandiosidade que a seleção brasileira tem frente ao Mundial, sendo a única pentacampeã na história da Copa do Mundo. Para ele, tinha que ser “uma roupa que fizesse a seleção chegar se impondo no Catar”, finalizou.

Será que conseguiu?

Atualizações do conteúdo

Sobre a braçadeira...

(Foto: Divulgação/Getty/Globo)

A Inglaterra jogou na manhã da última segunda-feira (21) e, apesar de não ter utilizado a braçadeira com as cores da bandeira LGBT, o capitão Harry Kane usou uma braçadeira preta com a frase “no discrimination”. Mas, gol mesmo quem fez foi a ex-jogadora e jornalista Alex Scott fora de campo, usando a braçadeira “One Love” em sua aparição antes da partida.


(Foto: Reprodução/BBC)





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Resenha Literária: Meu Policial

(Foto: Adan Cavalcante)

Eu tinha uma concepção de sempre (ou quase sempre) consumir as obras originais que derivam filmes ou séries. Seja por análise mais próxima do que se tornou essa transposição ou até por me interessar pelo conteúdo. No caso de My Policeman, ou Meu Policial, livro da autora Berthan Roberts, foi uma mistura dos dois: o interesse de conhecer a narrativa e, ao mesmo tempo, ficar pronto para ver as divergências entre as duas histórias.

A trama se passa por dois pontos de vistas e também em dois tempos cronológicos: o passado e o presente. Aqui, temos a visão da jovem Marion e do curador de um museu Patrick Hazelwood, ambos apaixonados pelo policial da história central, Tom Burgess. A história se passa na Brighton, ao sul de Londres, na década de 50. Cada peça desse triângulo amoroso é narrada de forma tão verossímil, que muitas vezes eu me perdia na ficção achando que havia se tornado uma biografia.

Marion e Tom são um casal que anda passando por um período difícil de suas vidas e isso foi agravado quando a mulher decidiu cuidar de um velho amigo do marido após ele sofrer um derrame. Em um estado aparentemente inconsciente, Marion narra histórias ao paciente, que depende totalmente de atenção. Já Tom renega a existência do “paciente”, entrando em pequenos debates sobre o porquê dessa boa ação da esposa.

Aos poucos vamos conhecendo a fundo toda a relação que envolve esses três personagens. Ambos se apaixonaram à primeira vista por Tom, que, em plena década de 50, lutava contra seus desejos por homens. Enquanto Marion aos poucos fugia da barreira de mulher dona de casa e tinha sua independência, também enfrentava as duras de estar apaixonada por Tom. Patrick, que já tinha passado por duras perdas, estava perdidamente apaixonado por esse policial, e o sentimento aos poucos se torna recíproco.

E enquanto esse triângulo amoroso se desenvolve, onde apenas uma parte sabe da existência, conhecemos mais e mais toda a psique que envolve os personagens. Seja seu núcleo familiar, suas vidas profissionais, suas angústias e medos, e suas dores. Era um processo de mudança e, ao mesmo tempo, a sociedade era ainda mais dura do que hoje com todos os sujeitos dessa obra. Esses aspectos são demonstrados não só nossos protagonistas, mas com situações e ações de vários outros personagens que aparecem ao passar das páginas.

Enciumada da relação do seu marido com Patrick, Marion, no auge da repressão, onde amar alguém do mesmo sexo era considerado crime na Inglaterra, denuncia o curador. Na prisão, ele perde algum tempo de sua vida, além da humilhação pública. A história aqui é vista de forma tão bem escrita que, por mais que este fato em questão seja ficcional, Bertha Roberts já afirmou que se inspirou em uma história real que a deixou chocada.

Na vida real, o caso foi entre o escritor inglês E.M. Forster (1879-1970), que se apaixona justamente por um policial, Robert Buckingham, na década de 30. Tal qual a história que inspirou o filme, Forster sofreu um derrame e foi cuidado por uma figura inesperada: May Hockey, esposa de Buckingham, com quem ele casou-se enquanto tinha sentimentos e um relacionamento com o escritor. Ela se propôs a cuidar dele até o final de sua vida. A autora, imaginando como teria sido essa relação a três, criou o que se tornou Meu Policial.

De maneira sensível, natural e honesta, ela cria uma narrativa que envolve todos os que lêem, fazendo sim, uma mudança em toda a características e clichês já apresentados até ali. É a humanidade, é humano e simplesmente é a vida. Ela encontra em suas palavras, ao apresentar personagens falhos, mas ainda assim honestos, a sua própria realidade. Marion pode não ser nenhuma santa, mas está longe de ser um demônio por ações que ela teve no passado. Tal qual Patrick, que em sua mais dolorosa existência, nunca desistiu do amor e de ser quem ele era. Até Tom, em certos momentos, é entregue a essa espiral do que é certo ou errado, mas no fundo é apenas humano.

Meu Policial foi lançado em agosto de 2012, mas só chegou às livrarias brasileiras quase 10 anos depois, em fevereiro deste ano. O longa adaptado, estrelado por Emma Corrin, Harry Styles, David Dawson e Rupert Everett, já está disponível no catálogo da plataforma de streaming Prime Video.


Nota: 8.5/10

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Editora: Melhoramentos
Ano: 2022
Páginas: 280


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EM CARTAZ: Pantera Negra Wakanda Para Sempre (2022)

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Esperar um filme da Marvel se tornou uma tradição para muitos. Todo o planejamento para embarcar em suas aventuras, rever aqueles personagens que já fazem parte de nossas vidas, criar teorias, abraçar novos mundos, etc. Quando Pantera Negra chegou aos cinemas, ele se tornou de cara um dos queridinhos da crítica e do público, tendo indicações a prêmios e até ganhou alguns.

Todo o seu elenco conquistou o mundo, tendo seu protagonista alcançado o panteão de ídolo de muitos, seja o ator e o personagem. Em agosto de 2020, veio um baque para todos nós: Chadwick Boseman faleceu vítima de um câncer que ele lutava há anos. Foi uma perda dolorosa para todos que acompanhava o jovem ator, que estava em uma crescente em Hollywood, e inclusive, recebeu uma indicação póstuma ao Óscar pelo seu maravilhoso trabalho em ‘A Voz Suprema do Blues’.

Muitas dúvidas pairavam pelo ar diante da continuação do filme de 2018. A Marvel já havia batido o pé que nenhum ator iria tomar o lugar de T’Challa, que seria sempre do Boseman. Logicamente, um novo personagem tomaria o manto do herói. Diante de várias teorias de qual seria a condução do filme diante desse luto, e quem tomaria a posse da alcunha Pantera Negra, finalmente teremos a resposta agora com o lançamento de Wakanda Para Sempre.

Com uma duração de duas horas e 41 minutos, Pantera Negra: Wakanda Para Sempre é um filme diferente do habitual da Marvel. O filme trata sobre o luto, e como cada um lida com ele de formas diversas. Em sua manutenção, independente do tempo que é algo pessoal, o luto é apresentado de imediato ou a longo prazo. Ele afeta o agora ou você é totalmente mudado por ele, te transformando. Você pode fugir, mas no final ele vai te encontrar. Em todas as nuances, o diretor e roteirista Ryan Coogler lida de maneira sensível e humana.

Com um início sufocante, onde mesmo sem mostrar a gente já sabe o que vai acontecer, é mostrado como eles lidaram com a perda de Boseman, e assim, consecutivamente, com o Rei T’Challa. O medo, o desespero, a urgência, a dor. Ao perder seu irmão, Shuri (Letitia Wright), é colocado em cheque em toda sua relação com a vida. E é esse é um dos plots necessários do filme. Em uma homenagem emocionante, sem palavras, temos a mudança da já emblemática abertura da Marvel com suas cenas e heróis marcantes, aqui, apenas com a imagem estrelada pelo Chadwick Boseman, no mais profundo silêncio. Impossível os olhos não se encherem de lágrimas nesse momento.

Shuri entra em negação, se fechando em seu laboratório, preocupando a Rainha Mãe Ramonda (Angela Bassett). Em sua função de líder master da nação, ela se vai ter que unificar seu povo, defendê-los de invasores externos e ainda, lutar para não perder o que restou de sua família. Ao trazer essa junção de mãe e filha, a trama do filme ganha força ao engrandecer essas mulheres em seus papéis. As guerreiras Dora Milajes são o exército mais capacitado de Wakanda. As mentes mais inteligentes do filme são duas meninas negras.

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

A apresentação do grande antagonista do filme, além das potências que buscam vibranium, é rápida e sem enrolação. O Namor (Tenoch Huerta) é certeiro e sem papas na língua. Ele diz para o que veio, como quer e o que quer, sem joguinhos. Inclusive, um ponto extremamente positivo é a escalação do ator de origem mexicana, com todo seu charme e talento entrega um personagem cheio de camadas que dá gosto de ver em tela. Independente de suas mudanças de sua origem com as HQs, aqui, nada é afetada. 

Todo desenrolar da história, de extração do material de desejo de todos, sendo restrito às duas nações (Wakanda e Talocan), levando elas a serem alvos de ataques é mostrado de modo bastante bem trabalhado e ainda assim, garante ótimos momentos de telas a essas apresentação. Os personagens de Talocan são de uma força sobre-humana, trazendo mais dificuldades a quem os enfrentam, e apenas os guerreiras de Wakanda buscam levar a luta até o fim.

O principal alvo de Namor é a novata Riri Williams (Dominique Thorne), uma garota genial, que cria um extrator de vibranium, que logo é usurpado pelo governo norte-americano. Para o Rei de Talocan, ela é a causa de todo distúrbio causado em suas terras (ou mares), e dá um ultimato à Rainha de Wakanda, pois para ele, tudo isso não teria acontecido se T’Challa não tivesse aberto a boca. Riri essa, que já tem série garantida no Disney+ para sua Ironheart, onde conheceremos melhor a personagem, que também enfrentou um luto e demonstro aqui em como isso lhe afetou.

A apresentação da história de Namor e o contraste das dores de Shuri, irão se fundir no terceiro ato, quando o grande embate acontecer. A partir desse momento, o manto do Pantera Negra irá ganhar força e a batalha final é grandiosa e belíssima de ver. O embate corpo a corpo e as tecnologias, tudo misturado ao misticismo dos povos marítimos engloba um novo universo apresentado em tela no MCU. Namor pode ser o antagonista aqui, mas não o vilão. Ele é um líder que faz o que faz pelo seu povo, mesmo que não seja o que muitos aprovem. Quando outra perda ocorre durante o filme, toda a raiva que foi acumulada é potencializada o que pode gerar um onda de violência futura sem tamanho.

Ao escolher seu caminho e finalizar a obra, novas surpresas chegam e conclui a obra do jeito que começou. Emocionante e dando a um personagem um novo sentido na sua vida. Pantera Negra Wakanda Para Sempre é comovente na medida certa, sem se prender a imagem da perda em todo seu filme. A dor está ali, mas ela é um sentimento e não o filme todo. Ao evidenciar em suas personagens femininas, a figura forte e astutas que elas são, o filme ganha obtém grandes resultados. O melhor da sua controversa Fase 4. 


Nota: 9/10

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Desculpe o transtorno, mas o Amor faz mesmo parte da equação geral do Universo


(Foto: HBO Max/Divulgação)

Tem uma frase da Alinne Moraes (ou do Wagner Moura não lembro exatamente) em “O Homem do Futuro” que diz sobre o Amor fazer parte da equação geral do Universo. Eu sempre achei isso muito poético, ao mesmo tempo em que não conseguia entender exatamente de que forma isso seria possível. O Amor não é uma coisa tangível, né? Sua concepção em si não é palpável, ele não está descrito em uma sequência numérica ou em códigos binários, muito menos se encaixa em uma função quadrática ou logaritmos, sei lá. Mas, de alguma forma, essa frase do filme faz muito sentido.

Com Interestelar, que revi esses dias, essa ideia fica mais fácil de ser compreendida. A personagem da Anne Hathaway, a cientista Amélia Brand, solta a seguinte frase: “O Amor não é algo que inventamos. É perceptível, poderoso. Precisa significar algo. O Amor é a única coisa capaz de transcender as dimensões do tempo e do espaço”. Para quem já assistiu o filme, sabe que a citação passa a fazer todo sentido com a resolução dele e a relação entre Murph e Cooper.

E é talvez nessa definição, do Amor ser algo que ultrapassa as barreiras dimensionais do tempo e do espaço que a gente encontre a possibilidade dele fazer parte sim da equação geral do Universo. Afinal, já dizia a Bíblia e Renato Russo: ainda que eu falasse a língua dos homens e a língua dos anjos, sem Amor eu nada seria.

Gosto de pensar que o Amor é essa coisa quase que super poderosa mesmo, porque ele é. Não falo aqui de ou somente de amor romântico, porque acredito que das formas de Amor e de amar, essa seja a mais superficial. O Amor maternal, fraternal, entre amigos, entre netos e avós, se constituem, ao meu ver, com muito mais força do que o elo entre um casal – mas, isso é uma visão pessoal da coisa toda.

Hoje eu escolhi falar sobre a força do Amor, não à toa, por dois motivos: o primeiro é que esta coluna que vos fala está completando seu primeiro ano de vida e foi muito movida pelo Amor. Pela escrita, pelos próprios pensamentos, pelas coisas e pelos outros. E, às vezes, por mim mesma. O segundo motivo é que essa reta final do ano me deixa mais melancólica do que o normal e 2022 foi um ano muito intenso e transformador em vários aspectos, essa carga emocional pesa e, no fim das contas, o alívio vem pelo Amor.

Outra coisa que me despertou a vontade de falar sobre isso – além do fato de ter revisto Interestelar – é que faz pouco mais de uma semana que Lula ganhou as eleições presidenciais pelo Amor. A gente foi às urnas votar contra o ódio e a violência, contra o fascismo e contra toda essa leva de coisas ruins que têm assolado o país nos últimos quatro anos (ouso dizer seis).

Recentemente passamos também pelo Dia de Finados e é um dia que me deixa muito introspectiva, pensando nas pessoas que já partiram. É um dia que me relembra também a força do tal do Amor, porque o luto, no fim das contas ainda é isso, ainda é uma forma de amar as coisas e as pessoas que nos deixaram, bem como a frase de WandaVision: o que é o luto, senão o amor que perdura? E essa é uma frase que se complementa com uma outra que carrego comigo desde que perdi a minha avó, em 2014, que fala de um Amor que não morre, apenas muda de atmosfera.  

Ou seja, dentro ou fora da equação geral do Universo, é certo concluir que o Amor é muito a resposta para as coisas. Ainda que ele não sustente relações sozinho, ou que seja suficiente para fazer relações darem certo, é através dele que entendemos, inclusive, a hora de ir embora. Quando as coisas fazem (ou não) mais sentido. É por ele que encontramos conforto nas horas de dor, apoio nas horas difíceis e mesmo a alegria nos momentos felizes. Mesmo que ele não seja o destino final, ele ainda faz parte do caminho.

E que a gente escolha sempre caminhar lado a lado com o Amor, então.

Obrigada pela companhia nesse primeiro ano de DOT, com paciência e carinho para ler os devaneios dessa Bea meio surtada. Amo vocês!

Para aproveitar o tema da semana e exemplificar melhor todo esse entendimento em relação ao amor, fica a dica de série: Modern Love. Quem sabe eu volte aqui outro dia para falar só sobre ela.

Até a semana que vem!

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