EM CARTAZ: Marighella

(Foto: Marighella/Divulgação)

Este texto contém spoilers.

“As pessoas precisam saber que no Brasil tem gente resistindo” (Marighella, 2021)

Você e eu podemos discordar da forma que Marighella escolheu lutar, mas jamais poderemos questionar suas razões ou negar a força que sua luta teve. Em um país tomado pela repressão, censura e violência desenfreada contra as minorias e opositores, Carlos Marighella foi uma figura que ousou bater de frente com o Regime Militar na década de 60.

É curioso e, no mínimo, doloroso assistir esse filme cerca de 50 anos depois e perceber que o Brasil está mais próximo do que distante da realidade retratada. A violência policial, o racismo, o genocídio da população negra, a corrupção, a repressão, o flerte com a censura e o autoritarismo como caminho escolhido por parte das autoridades tem mais a cara de 1964 do que de 2021.

O filme, dirigido por Wagner Moura, acompanha o guerrilheiro Carlos Marighella no ano de 1969, período em que ele decidiu se opor à Ditadura através da luta armada. Para contextualizar as escolhas de Marighella, Moura opta por trazer no início do filme uma cena anterior ao recorte temporal da narrativa, na verdade no ano de 64, onde Carlos sofre perseguição e atentado por parte dos militares em um cinema no Rio de Janeiro. 

A partir daquele momento, em que é baleado no peito enquanto grita frases como “abaixo à ditadura” e “viva a democracia”, Marighella decide que a militância pacífica não funciona mais pra si mesmo e, já em 69, se junta com revolucionários cerca de 30 anos mais jovens do que ele para enfrentar os militares e o regime a partir do “olho por olho e dente por dente”.

Wagner Moura tem uma série de acertos na direção e roteiro desse filme. Mas, talvez o maior deles seja o elenco. Com nomes como Seu Jorge, Bella Camero, Humberto Carrão, Bruno Gagliasso, Adriana Esteves, Luiz Carlos Vasconcelos, Herson Capri, Henrique Vieira, Jorge Paz, entre outros, o diretor consegue cativar o telespectador enquanto apresenta personagens com diversas camadas – ao menos a maioria deles.

E, falando em atuação, tem ao menos três que valem o destaque para mim. O primeiro deles é Seu Jorge, obviamente, por representar as “mil faces de um homem leal”, como diria Racionais. O Marighella de Seu Jorge não quer ser um herói, mas também não se valida da fama de terrorista. É gente como a gente, que decidiu lutar da forma que acreditava por um Brasil livre novamente. Como eu disse no início, você e eu podemos discordar dessa escolha, mas é inviável negar que ele fez o que julgava certo em um cenário de violência e opressão, onde a bandeira branca e o diálogo eram silenciados a tiro. O Marighella de Seu Jorge erra e acerta, é racional e emocional e, no fim, se torna mártir sem ter o desejo de ser.

A segunda atuação que quero destacar, mas que com certeza é a mais marcante do filme inteiro, é a de Bruno Gagliasso. Nas redes sociais, o ator já havia preparado o público sobre o fato de que Lúcio, o delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) inspirado no torturador Sérgio Paranhos Fleury, era alguém intragável. Mas, acredite, é mais difícil assistir. Lúcio é racista, autoritário, corrupto, homofóbico, violento, mentiroso, frio e todo o retrato do que há de pior em um ser humano – se é que dá pra chamar assim (soa familiar?).

Responsável por uma verdadeira caça aos integrantes do partido liderado por Marighella, a Ação Libertadora Nacional, foi Lúcio também que declarou o guerrilheiro como “o inimigo número um do Brasil”. Em certa parte do filme, Lúcio prega cartazes de terrorista procurado para Marighella e solta a seguinte frase: “se eu mato preto, eu mato vermelho [em alusão ao comunismo]”. Em seguida, ele urina em um dos cartazes, no rosto de Marighella. Apesar de rápida e “simples”, essa é uma das cenas mais doídas do filmes – mas, de longe, não chega nem perto da pior.

(Bruno, que atualmente é pai de três filhos, sendo dois deles negros, contou em uma entrevista que ainda não consegue mostrar o filme para as crianças, primeiro por conta da classificação indicativa, mas também por seu personagem extremamente racista. Para ele, é preciso que as crianças tenham um entendimento maior para apresentar o filme, que ele julga ser muito importante para o Brasil, para que não confundam o pai com o personagem. Além disso, o ator também relatou ter crises de ansiedade após as cenas de tortura. Pesado, né?)

A terceira atuação que, para mim, vale a menção é a de Humberto Carrão. O personagem sob o mesmo nome, Humberto, é um revolucionário que une elementos de personalidade de vários outros guerrilheiros da época, segundo o autor do livro que inspirou o filme, Mário Magalhães. Humberto é cético, mas sua lealdade é quase cega. Ele soa irresponsável, mas é a sua responsabilidade e empatia que nos traz uma das cenas mais tristes e bonitas do filme (sofrida e odiosa também, como o filme inteiro, basicamente). Antes de ser alvejado, ele manda um recado para um amigo de luta aos berros, a fim de protegê-lo, e morre para salvá-lo.

Inclusive, o amigo mencionado é Jorge, outra atuação que se sobressai no filme e que carrega a cena mais difícil de assistir, do meu ponto de vista. A tortura de seu personagem, entre o meio e final do filme, dói na alma. Eu não consegui ver toda, inclusive. Jorge é capturado por Lúcio e sua tropa, é levado até o local de tortura e apanha, muito, várias e várias vezes. Se negando a entregar Marighella, ele é, então, jogado no chão, sem roupas, amarrado em fios de eletricidade e, ao jogarem água nele, também ligam a energia elétrica. A tortura de choque elétrico já parece sofrida demais, mas a cena fica ainda mais pesada quando o personagem de Bruno Gagliasso grita “vai, eu quero ver se você acende”.

Juro, Marighella é um filme muito difícil de se assistir, mas extremamente necessário. O Brasil tem memória curta em relação ao seu passado, não existe respeito para com a história e nem punição para os opressores e fascistas. Enquanto a arte luta para manter o conhecimento circulando, a história viva e sendo contada, o atual presidente do país interfere no Exame Nacional do Ensino Médio para colocar “revolução” ao invés de “golpe de 64”, por exemplo. O fantasma da ditadura segue rondando o Brasil à espera de uma brecha e, dessa vez, a gente tem como “porteiro” alguém que é super a favor de abrir essa porta novamente.

Marighella é um filme político que sofreu censura para a sua estreia, que deveria ter acontecido em 2019. O longa-metragem estreou no último dia 4 de novembro, na data que marca os 52 anos da morte do guerrilheiro.

Além de versar sobre a ditadura militar e a repressão, como mencionados, o filme também retrata a discussão racial que, para muitos, não foi um debate tão presente na vida de Marighella, mas, se for o caso, a licença poética se fez válida. Na vida real, Marighella não era um negro retinto como Seu Jorge – inicialmente, a ideia de Wagner Moura era de que Mano Brown interpretasse o guerrilheiro, mas, por conflitos de agenda, o rapper precisou deixar o projeto. O filho de um imigrante italiano com uma baiana filha de escravos podia não ser retinto, graças à miscigenação, mas definitivamente não era branco. Inclusive, sofreu diversos episódios de racismo (alguns retratados no filme e outros não).

Contudo, eu queria jogar luz sobre a presença do pastor Henrique Vieira nesse filme, carregando nas costas uma das minhas cenas preferidas. O pastor negro, conhecido justamente por pregar o evangelho do Jesus preto, interpreta o frei dominicano Henrique, inspirado no frade Fernando de Brito. Em um diálogo com Marighella, Henrique diz que “Cristo é preto. Tem a nossa cor e a nossa esperança. Imagina o constrangimento de um Jesus negro no Brasil Colonial”. Ou seja, o debate racial (ainda mais incluindo religião) é mais uma temática pertinente trazida no filme.

Caminhando para o final do filme, a morte de Marighella é fruto de um cerco dos policiais do DOPS e Lúcio, que torturaram os frades dominicanos até eles decidirem colaborar com a armação. Marcado o encontro com o guerrilheiro através dos frades, os militares chegam no local e matam ele. Algum tempo antes, Marighella tinha decidido que não seria torturado. Ele andava com cápsulas de cianureto para ingerir, caso fosse capturado. Durante a emboscada, antes mesmo de alcançar as cápsulas, Marighella foi atingido com diversos tiros dos policiais. Sua morte, mais uma fachada da ditadura, que tentou mascarar o assassinato e forjou a cena do crime (alegaram que houve trocas de tiros, quando não houve, e colocaram uma arma junto do corpo, quando não tinha) – e a foto que foi tirada e publicada por jornalistas na época.

Em questões técnicas, o filme também carrega mais acertos. A fotografia é incrível, com cenas e paisagens do Rio de Janeiro e de Salvador. Ambientado na década de 60, o filme tem todo aquele ar de filtro analógico. A caracterização, os figurinos e os elementos de cenário, como os carros de época, dão um charme a mais na produção. Outra pedra preciosa da produção está na trilha sonora: Chico Science e Nação Zumbi, Racionais MCs, Gonzaguinha e Dorival Caymmi.

De erros, não consigo listar nenhum. Não que o filme seja perfeito, mas porque eles soam insignificantes diante da representatividade da obra. Uns exageros ali, outros arrastados aqui. Nada que comprometa a mensagem e nem o sentimento do espectador.

E mais, o filme não acaba quando termina. A cena pós-crédito é de arrepiar e emocionar, principalmente nos tempos em que estamos. Nela, Humberto, Bella, Luiz Vasconcelos, Jorge e Ana Paula Bouzas estão de mãos dadas em um círculo, cantando o hino nacional aos berros. Eles terminam a cena chorando (e eu também).

Em entrevista, Wagner Moura contou que a cena não ia entrar no filme e, na verdade, nem deveria ser filmada, porque era apenas preparação para a gravação. Contudo, ao presenciar a emoção dos atores, ele mandou ligar as câmeras e o registro está disponível nos minutos depois em que parece que o filme acabou – mas aí você percebe que ainda não. 

A minha comoção com esse fim vem de um lugar de resgate. A cena, com aqueles atores ali, naquela mesma emoção e gritos, me passou a sensação de ressignificação, de “estamos pegando de volta o nosso hino, a nossa bandeira” etc, coisas que eu, particularmente, hoje tenho receio (e até vergonha) de me associar.

Mancharam.

Mas, tomaremos de volta.

Nota: 9/10

Marighella está disponível nos cinemas. Consulte a programação local.
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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