RESENHA: Midnight Mass (Missa da Meia-Noite)

(Foto: Netflix/Divulgação) 

À frente de projetos como “A Maldição da Residência Hill” e “A Maldição da Mansão Bly”, ambos da antologia intitulada “A Maldição” do serviço de streaming Netflix, Mike Flanagan entrega mais uma obra para o streaming. Dessa vez fomos agraciados com “Missa da Meia-Noite”.

Criada, produzida, dirigida e roteirizada pelo próprio Flanagan, o projeto teve seu início em meados de 2013 e baseia sua composição nas convicções, visões sociais e religiosas, e um pouco do histórico de vida, do próprio criador da série. Tendo uma forte influência em criações do Stephen King, grande ídolo do Mike, obras como Salem, Carrie, O Iluminado e Trocas Macabras, tem seus respingos dentro da conjunção da obra que é Missa da Meia-Noite.

Saindo de grandes mansões mal assombradas com humanos coexistindo com fantasmas, somos apresentados ao vilarejo de Crockett, localizado em uma ilha no meio do nada, onde duas figuras estão de chegada e serão a base catalisadora de toda a movimentação da cena da cidade. O recém-saído da prisão, Ryan Flynn (Zach Gilford), retorna para cidade natal para morar na casa dos pais em busca de um recomeço após ser condenado por matar uma garota em um acidente de carro. A outra parte é o padre Paul (Hamish Linklater), um sacerdote que chegou na ilha na missão de substituir o antigo congregacionista que atuava na igreja local. Carismático e cheio de esperança, padre Paul chega na ilha com toda boa vontade e desejo de mudança e prosperidade para aquele lugar tão sofrido.

A atmosfera da ilha em certos aspectos é claustrofóbica, seja por ser no meio do nada ou pela sensação de que algo muito grande está por acontecer. Os personagens criados por Flanagan dão o contraste de tudo isso de uma forma estarrecedora, como é o caso da Bervely Kane (interpretada de uma maneira sensacional pela Samantha Sloyan, a Perfect Penny Killed My Husband de Grey’s Anatomy), uma beata severa com olhar cruel que despeja preconceito contra quem tem visão contrária a religião dela. É impossível não associar a Bervely com a Margaret White, personagem fanática religiosa do livro Carrie de Stephen King, que se via acima de tudo e todos.

Dentro desse conceito religioso, somos apresentados ao xerife Hassan (Rahul Kohli), muçulmano e que é alvo de preconceito por Bervely, e durante a série vai enfrentar a luta para manter sua religião viva dentro do seu filho, que por pressão social começa a renegar suas raízes. Erin Greene (Kate Siegel, parceira dentro e fora de tela de Flanagan), futura mãe solo, é amiga de Ryan Flynn e juntos eles terão papel importante durante toda a história.

Um ponto importante de se cifrar é o trabalho de maquiagem da equipe da série, que teve que envelhecer vários personagens devido ao conceito. A atriz Alex Essoe, que aqui vive Mildred Gunning, uma senhora de idade que sofre de demência, está escondida em galões de maquiagem. Outro caso é o do Anjo (Quinton Boisclair), que mostra um trabalho incrível. Anjo este, que tem um ponto bastante importante dentro da história.

A partir daqui podem ter spoilers.

Missa da Meia-Noite é uma história de fé e vício, e como enfrentamos isso é tratado de forma crua, mas cheia de analogias. Ryan Flynn é um adicto e vive com o trauma de ter assassinado uma pessoa por causa desse vício. Por causa de seus pais, ele começa a frequentar a igreja e devido a sua pena, ele deve frequentar sessões dos Alcoólicos Anônimos, e nesse contexto começa a ter contato com o padre Paul. A fé não está atrelada à religião, e aqui somos apresentados a alguém que luta contra um vício e também por não perder a fé em si mesmo.

A religião permeia a série toda, tanto que seus títulos vem de livros da bíblia que vão de Gênesis ao Apocalipse, e isso é uma analogia do começo ao fim da história em questão. Ao chegar na ilha, Padre Paul dá início a uma mudança de estilo de vida a todos na ilha. O primeiro e mais importante exemplo disso é Leeza (Annarah Cymone), filha do prefeito que perdeu o movimento das pernas devido um acidente envolvendo Joe Collie (Robert Longstreet), que após o incidente se tornou o alcoólatra da cidade. Posteriormente a esse “milagre”, a igreja se tornou cada vez mais popular e o fanatismo maior, principalmente na figura de Berv.

Com o tempo descobrimos que padre Paul e o Monsenhor Pruitt, o antigo reverendo local, são a mesma pessoa e o Anjo em questão é uma figura vampiresca que ao sugar o sangue do Pruitt, devolveu-lhe a juventude e com isso, ele foi trazido a cidade como fosse a salvação da mesma. Toda a cidade entra em estado de frenesi e apenas poucos se opõem a toda a loucura que ocorre durante esses acontecimentos.

São vários os momentos onde passagens bíblicas são proferidas, tendo seus diálogos muito bem trabalhados. Missa da Meia-Noite entrega um dos melhores roteiros do ano, em que, como outras obras de Flanagan, o horror não está no medo em si, mas em como ele pode afetar a vida das pessoas. Os questionamentos pessoais, as discussões teológicas e pessoais, como enxergar e viver dentro de uma aura cheia de furos causados por traumas de vidas. É importante mostrar que dentro de seu texto a fé é demonstrada em todas as suas figuras, as boas e as más, e isso é o maior trunfo da série, que visto até o seu final não são todos que são sugados e entregues ao desejo animal. As escolhas que são feitas fazem a humanidade e, muitos culpam a fé, mas como você quer viver com essas escolhas é o que fomenta a sua existência e, ao final de tudo, do pó viemos e ao pó voltaremos.
Adan Cavalcante
Adan Cavalcante

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Um comentário:

  1. Eu adorei a série, mesmo que em alguns momentos os diálogos seja imensos e eu viajava demais. Ainda bem que meu namorado me esclareceu que é algo do estilo do diretor. E amei o texto, ótima interpretação do Adan.

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