RESENHA: Os Muitos Santos de Newark


(Foto: Divulgação/HBO)

Como é bom revisitarmos as boas memórias. Algo que está lá dentro do nosso subconsciente. Por muitas vezes, o tempo age e nem temos mais a noção exata do porquê gostamos tanto daquilo. Basta uma faísca. Uma simples menção em uma roda de conversa, uma referência dentro da cultura pop ou, no meu caso, falando sobre em um podcast com os amigos. De repente, esses acontecimentos instigadores são o suficiente para relembrarmos todos os bons momentos vividos. Foi o meu sentimento ao me deparar com Os Muito Santos de Newark. Isso já havia ocorrido quando assisti El Camino, filme de 2019 que continua a história da série Breaking Bad (2008-2013), e agora, mais uma vez, com a prequel de Família Soprano (1999-2007). A nostalgia bateu forte.

O maior mérito do filme talvez seja de fazer tudo parecer uma recordação, como quando estamos abrindo um velho álbum de fotos da família, por exemplo. Senti isso logo no início, ao ouvir a voz do narrador. É a do ator Michael Imperioli, o eterno Christopher Moltisanti, um dos melhores personagens da série. Ele foi o escolhido para nos familiarizar com a Newark que não conhecíamos. Apesar das prévias, trailer e imagens promocionais nos fazerem acreditar que acompanharíamos o jovem Tony Soprano na escalada até o poder, é o pai do Chris, Richard "Dickie" Moltisanti (Alessandro Nivola), quem toma as rédeas da história.

Dickie é o responsável por boa parte dos negócios da vizinhança, demonstrando liderança frente à família e amigos. É inescrupuloso, como vários chefes da máfia, ao mesmo tempo em que serve de modelo para o sobrinho de consideração, Anthony Soprano, um garoto rebelde, mas de bom coração. Pelo menos naquela época. Na segunda metade do longa, é o ator Michael Gandolfini que faz o papel de Tony, uma homenagem ao saudoso James Gandolfini, falecido em 2013. Ele é pai do Michael e fez o mesmo icônico personagem na série de TV. A semelhança é perceptível e agrada aos fãs da obra.

O elenco é recheado de estrelas e nomes conhecidos. Vera Farmiga interpreta de forma perfeita a problemática Livia Soprano. O marido dela, Johnny Soprano, é feito pelo Jon Bernthal. Um dos principais coadjuvantes é o talentoso Leslie Odom Jr., no papel do Harold McBrayer. Temos ainda Ray Liotta fazendo dois personagens diferentes, os irmãos Moltisanti, e o Corey Stoll como o irritante e memorável, Junior Soprano. Além deles, o elenco de apoio não compromete quando estão em tela. Por muitas vezes aparecem os personagens conhecidos da série, ainda novos, e conseguimos reconhecê-los pelas características pessoais e trejeitos, quase como o início da construção do que aquelas pessoas se tornariam. Um show de “fan service” que funciona.

A direção é do Alan Taylor, que havia dirigido alguns episódios da série da HBO. O roteiro é assinado pelo Lawrence Konner e, claro, pelo criador e showrunner de Família Soprano, David Chase. Estamos familiarizados com aquele mundo e Chase consegue adicionar ainda mais camadas à história idealizada por ele. O filme entra de cabeça na discussão sobre as dificuldades e abusos enfrentados pela comunidade negra dos EUA. O racismo, a violência policial, junto com a Guerra do Vietnã como pano de fundo, moldam o personagem do Leslie Odom Jr., sendo de extrema importância acompanharmos o ponto de vista dele.

Para garantir a satisfação do público, Taylor e Chase não esquecem do que tornou Sopranos um sucesso. Está tudo ali. A violência aleatória e por muitas vezes sem motivo algum, a utilização dos velórios corriqueiros como sala de reuniões, o humor ácido e até mesmo um paralelo com a cena final da série. A atenção ao protagonista também aparece. Tony Soprano é uma testemunha do mundo ao redor dele. É evidenciada, desde cedo, a necessidade que ele tinha de ter alguém para conversar. Ter alguém para escutá-lo e aconselhá-lo. Por diversas razões, isso não aconteceu, moldando-o para a vida do crime.

Depois de terminar de assistir, só sei que quero voltar o mais rápido possível para esse mundo de canalhas que amamos odiar.

Nota:
9/10

Onde assistir? HBO Max.
Micael Menezes
Micael Menezes

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Autoria de Clube do Café da Manhã. Tecnologia do Blogger.