Elza, teu canto ecoa até depois do fim



Não lembro como conheci a Elza Soares, ela sempre me pareceu daquelas pessoas que a gente já nasce reconhecendo a existência e simplesmente vai crescendo e acompanhando, entrelaçando a própria história na trajetória de alguém como ela. Para mim, enquanto mulher que se reconhece como negra, Elza sempre foi mais do que uma cantora, é uma referência, uma entidade, algo muito maior do que o palpável.

Lembro de chorar da primeira vez que ouvi A Carne e entendi o sentido da letra. Cheguei a usar como referência em redação para o Enem por várias vezes. Inclusive, foi no cursinho, através dos meus professores Diogo Didier e Edu Silva, que eu re-conheci Elza. Com outros olhos, com outra percepção e com mais força.

Elza também se faz presente em um dos meus filmes preferidos de toda a vida. A trilha sonora de Lisbela e o Prisioneiro traz uma versão cantada pela musa para a música Espumas ao Vento, que embala uma das melhores e mais emblemáticas cenas do filme. A interpretação de Elza sempre esteve à frente do que se podia esperar, sempre carregada de emoção, mesmo com a sutileza do seu cantar, que parecia sair com tanta naturalidade.

Nos últimos anos, enquanto estava na faculdade, Elza se fez presente mais uma vez. Durante a passagem pela disciplina de Radiojornalismo, produzimos um programa sobre violência contra a mulher e Maria da Vila Matilde ecoa nessa produção. Está registrada, ainda bem. Mais uma de suas canções com letras necessárias, fortes e que podem doer, mas jogam luz numa realidade que precisa ser transformada.

Nunca fui em um show seu. Nunca a conheci pessoalmente. Mas, todas as suas marcas, lembranças, referências e toda a sua existência, de alguma forma, estarão sempre aqui, pairando sobre nós. E ainda bem!

Se ainda houvesse tempo e oportunidade, gostaria de olhar no fundo dos olhos de Elza e dizer: obrigada. Obrigada por ter se permitido ser com toda a força que tinha, de ter cantado até mesmo depois do fim do mundo. Por ser um símbolo de resistência, de dignidade, de exemplo de que há muito caminho sim para pessoas como nós. Elza vai ser para sempre inspiração. É uma honra poder seguir por uma estrada que alguém como ela abriu para mim, para outras mulheres, para outras mulheres negras.

E, se for possível dizer que há certa beleza na sua passagem, me deixa mais leve saber que se foi aos 91 anos de causas naturais, depois de uma vida de constante entrega, pôde descansar – e mesmo assim, ainda deixou um enorme material a ser lançado, porque ela continuará cantando até depois do fim.

Deixo aqui embaixo uma das minhas versões preferidas de uma música, com duas pessoas que admiro demais da conta. Com vocês, Elza e Emicida.

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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