EM CARTAZ: A Crônica Francesa


(Imagem: Divulgação/Searchlight Pictures)

Há um bom tempo, os filmes focados no jornalismo de vez em quando aparecem, seja para falar bem ou mal sobre a profissão ou até mesmo dos próprios jornalistas. Quando um deles se destaca, são repassados nas universidades, principalmente aqueles que recebem indicação ou ganham o Oscar, como por exemplo os recentes Spotlight: Segredos Revelados (2015) e The Post: A Guerra Secreta (2017). Mas de vez em quando, é legal quando o intuito não é falar de uma super matéria premiada ou de acontecimentos espetaculares. Afinal, é no marasmo do cotidiano que os jornais são feitos.

Em a Crônica Francesa, por conta de certas circunstâncias, um jornal impresso francês irá fechar as portas. Para a publicação da última edição, os integrantes resolvem selecionar duas seções menores e três importantes reportagens que marcaram a história do The French Dispatch. Algo como uma celebração póstuma do qual os jornalistas viveram no decorrer dos anos. Com isso, assistimos a um longa que é composto por um prólogo e três histórias distintas que formam pequenos filmes dentro dele mesmo, simulando a leitura de um jornal e com ele mesmo sendo a ligação necessária entre elas. Tudo isso em uma divertida 1h40m.

Wes Anderson é o diretor da obra, o mesmo de Moonrise Kingdom (2012) e O Grande Hotel Budapeste (2014), e aqui, ele mantém a maneira já característica de não se limitar às formulas e modelos vigentes. Grande parte do que acompanhamos é filmado como se fosse um teatro, com as gravações acontecendo em um enquadramento pré-estabelecido e imóvel, mas sem deixar que isso prejudique o decorrer das sequências. O filme tem uma estética exuberante e ele também é inventivo. As cenas aparecem muitas vezes em preto e branco, mas alternam com o colorido para informar ao espectador da troca de núcleo ou quando é para conversar com o texto, ao evidenciar a cor dos olhos de uma personagem, por exemplo.

E não para por aí, do nada, temos uma sequência de animação, durando alguns bons minutos. É uma cena de perseguição que, de fato, não combinaria com o clima apresentado e desmistificaria as pequenas locações utilizadas até então, já que passa por várias ruas da cidade. Transformar isso em uma animação foi uma boa sacada, funcionando perfeitamente. Aliás, nos filmes dele, sempre parece que o Wes Anderson puxa a atenção para si. E isso não é ruim, basta vermos o elenco incrível e cheio de talentos de A Crônica Francesa.

Citando alguns nomes: Benicio del Toro, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Jeffrey Wright, Bill Murray, Owen Wilson, Elisabeth Moss, Edward Norton, Willem Dafoe, Saoirse Ronan, Christoph Waltz, entre outras figuras carimbadas do diretor. Ufa. E o melhor de tudo isso é que funciona. Não parece algo forçado, feito só para ter estrelas e atrair o público. Estão bem divididos nos três contos e outros interlúdios que compõem o longa. Dá a impressão que todos querem trabalhar com ele pelo menos uma vez na vida.

Apesar de não aprofundar nos temas apresentados, trazendo uma abordagem leve, é perceptível a intenção do roteiro em falar sobre fatos atuais. Dificuldades enfrentadas por pessoas da comunidade LGBTQ+, a exclusão e necessidade de se provar diariamente dos imigrantes e a eterna discussão sobre a parcialidade do jornalismo são apenas alguns exemplos. Além disso, voltando à ambientação principal do filme, os jornalistas convivem com os famosos “passaralhos” e com o fechamento de jornais nos últimos anos, sobretudo os impressos. São profissionais desempregados da noite para o dia e histórias que deixam de ser contadas abruptamente, mas que A Crônica Francesa faz questão de reafirmar que são imprescindíveis.

Nota: 8/10
Micael Menezes
Micael Menezes

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