RESENHA: Os Olhos de Tammy Faye (2021)


(Foto: Divulgação/Searchlight Pictures)

A cultura norte-americana tem várias personalidades que ecoam pelo tempo e espaço, saindo do solo estadunidense e tornando histórias mundiais. Outros nomes se aprisionam no imaginário popular nacional, onde apenas seu povo tem acesso e envolve várias crostas históricas que, ao serem contadas, marcam uma vida. É o caso de Jim Bakker e sua esposa Tammy Faye, televangelistas que tiveram um império, mas, em meio a polêmicas de sonegação de impostos, roubo de fiéis e sexo fora do casamento, viram tudo ruir.

Baseado no documentário de mesmo nome de 2000, o diretor Michael Showalter, nome já consagrado na TV e com algumas pequenas grandes obras pro cinema, traz esse drama biográfico extremamente competente que, em meio as décadas de 70 e 80, mostra, sem tomar partido, esse recorte da cultura estadunidense tanto da televisão como de sua própria história.

Vindo desde de suas raízes, o filme começa esse contorno da vida da Tammy Faye (Jessica Chastain) desde sua infância, onde filha de uma mulher divorciada, que na década de cinquenta era vista de forma rechaçada da sociedade, tem o desejo de acompanhar sua família ao culto, agora formada por seus irmãos do segundo marido da mãe. Excluída, devido a sua origem, Tammy desobedece sua mãe, que é a pianista da igreja, e ao adentrar tem uma "revelação" no meio do culto e é aceita por todos ali.

Sua vida é ligada à doutrina religiosa e, ao ser mandada à universidade, tem seu encontro com Jim Bakker (Andrew Garfield), que automaticamente a impressiona e a partir dali, o futuro de ambos estão ligados. Interessante observar que, desde seu início, as pregações de Bakker apresentam um teor fora do curva, mostrando desde cedo a ambição que existe dentro dele em ser rico. Jim e Tammy se casam e juntos começam a trabalhar seu desejo de levar a palavra de Deus para o mundo.


(Foto: Divulgação/Searchlight Pictures)

Cada vez mais é mostrado o quão desvirtuoso todo esse trajeto é cimentado. Eles, principalmente Bakker, não estão ali pelos motivos certos e, como muitos conhecemos, utilizam da palavra bíblica para segmentar seus ideais e suas ideologias. Para aceitar suas convicções, volta e meia forjadas de invejas e contradições, é mostrado como "Deus me mandou fazer" e se é assim, está tudo bem.

Jessica Chastain encontra-se aqui em um dos seus melhores trabalhos e, ouso dizer que se não, o melhor. Sua entrega é visível e sua química ao lado de Andrew Garfield é palpável de uma forma que você se sente preso ao olhar ambos em tela. Não importam aqui os seis anos que dividem os dois em idade, pois em tela, isso se foi como o vento. O trabalho de maquiagem é um dos protagonistas dessa obra, onde a caracterização feita nos atores dão uma corporeidade única aos personagens. Em certos momentos, a Chastain é a Faye e pronto.

Do mesmo jeito que eles sobem, assistir a queda deles é doloroso e ver a degradação tanto do casamento quanto do ser humano, você sente que aquilo ali não era pra ter sido. Tammy Faye entra em colapso, se vicia em remédios (como ela mesma diz: o único vicio dela é diet cola). Cada vez mais usando de sua hipocrisia, temos o Jim Bakker se afundando mais e mais, se metendo com pessoas que não devia.

Tammy Faye é humana, é um personagem controverso dentro e fora de sua congregação. Ao apoiar os direitos LGBTQ+, tratar de sexo como forma normal e falar de AIDS com humanidade, diferente dos parceiros de sua igreja, Faye quebra paradigmas e isso assusta – e ao mesmo tempo atrai o público.

Um dos personagens mais interessantes do filme é a mãe da Tammy, Rachel LaValley, defendida de forma brilhante pela Cherry Jones, uma das melhores atrizes. Cherry aqui empresta sua força para uma mulher de sua época, criada nos valores cristãos e, que em sua visão, age de forma certa com sua filha, mas muitas vezes a deixa de lado. Mas ao se ver, é uma mãe, e uma mãe que ama sua filha e quer o seu bem acima de tudo. Em uma de suas conversas, Rachel fala que a Tammy é cega e que cai por qualquer discurso. O que no final se mostra como o que realmente é.



Os Olhos de Tammy Faye é um filme de Oscar, que com toda certeza vai ter espaço garantido em suas indicações. As performances de Garfield e Chastain precisam ser reconhecidas pela organização e nem que não levem, mas só por estar lá já vai ser algo. O filme tem seus erros, que no meio se tornam acertos e é extremamente camp no visual, sendo uma ótima escolha, devido a sua época cronológica.

O caminho é trilhado até 1994, onde em uma cena belíssima e ao mesmo triste, vemos uma Tammy Faye reclusa, em busca de seu retorno, não à fama, mas à propagação da palavra, que mesmo que tenha causado tanta dor a ela, ainda é o seu pilar de vida. Ao final, vemos uma bela apresentação e uma visão da igreja e do Estado sendo mostrada de forma teatral e resplandecente. Vale ressaltar que a atriz cantou todas as músicas do filme, mostrando mais uma versatilidade de sua atuação.

O filme tem previsão de estreia para 17 de fevereiro de 2022 e vale super a pena tirar um tempinho para essa obra.

Nota: 8,5

Confira o trailer abaixo:

Adan Cavalcante
Adan Cavalcante

Para saber mais sobre o/a autor/a, acesse a aba "Quem Somos".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilha sua opinião! ♥

Autoria de Clube do Café da Manhã. Tecnologia do Blogger.