And Just Like That tenta consertar todos os erros de SATC, mas a que custo?


(Foto: Divulgação/HBO)

Quem acompanha o blog viu que quando And Just Like That estreou, eu trouxe um texto de primeiras impressões em relação aos dois primeiros episódios do revival. Na época, comentei da minha ansiedade para o desenrolar da história e, agora que essa primeira parte foi concluída, é inevitável não dizer que ficou uma sensação dúbia de encantamento e decepção.

A tentativa foi louvável e em muitas questões acertou em cheio, como no enredo da Charlotte (Kristin Davis) e em toda a trajetória da Carrie (Sarah Jessica Parker) tentando se reencontrar enquanto uma mulher solteira, sem esquecer que a sua bagagem ainda lhe pertence, de uma forma ou de outra, mas não deve lhe aprisionar.

Refleti muito sobre como ia abordar meu ponto decepcionante nesse revival então, porque ele se dá especialmente na história da Miranda (Cynthia Nixon). Ela sempre foi uma personagem construída tentando fugir dos estereótipos da mulher convencional da época, seja lá que época for. Contudo, o risco de se desenvolver uma produção nova de algo que já tem uma história consolidada é alto e acho que aqui, em específico, não compensou.

Não pela Che (Sara Ramirez), nem pelo Steve, mas pela própria Miranda. Li em algum lugar que a Miranda deixou de ser a Miranda para se tornar a própria Cynthia e, apesar de não saber explicar melhor, isso fez muito sentido para mim.

Ps: Sara Ramirez, que adição no enredo! Tudo!

Acho que a tentativa da série de abraçar várias propostas e tentar consertar todos os erros que a produção dos anos 90 ainda não enxergava deixou uma porção de coisas meio jogadas, como o casamento da Miranda e do Steve. Eu adorei a ousadia de mostrar ela como uma mulher querendo explorar sua sexualidade e outras questões depois dos cinquenta anos, mas não é como se a gente não tivesse o desenvolvimento do casal até pouco tempo atrás e, mais ainda, um casal que teve a oportunidade perfeita de se separar no primeiro filme de SATC e decidiu por ficar junto.

Separações acontecem e posso estar falando enquanto uma mera apegada à história, mas confesso que me incomodou o jeito como eles levaram a escolha do divórcio, não houve diálogo, foi uma decisão unilateral que foi jogada no roteiro e a gente simplesmente engoliu. Daí o Steve sai de cena e parece que, na verdade, nunca fez parte da história.

O tal do Brady também tá insuportável e a única aparição dele que vale a pena foi no último episódio, quando ele, finalmente, trata a mãe com alguma dignidade, né? Rs

No mais, terminei a série, pelo menos, gostando do casal Che e Miranda. Já que lançaram, espero que cuidem.

Voltando aos pontos positivos… Carrie sendo Carrie é sempre adorável. Escrevendo, falando sobre relacionamentos, se arriscando, se conectando com pessoas e seguindo seu coração. Fiquei esperando a aparição do Aidan, que tinha sido confirmado, mas não aconteceu e ajudou no meu ar de decepção, mas a ausência dele não foi suficiente para deixar a vida amorosa da Carrie morna. Bradshaw está de volta, Nova Iorque!

A Charlotte tem o melhor plot da temporada, de longe. O filho trans, Rock, e a adolescência da Lily apresentam uma Charlotte mãe muito mais madura do que a jovem adulta que conhecemos nas seis temporadas de SATC e até mesmo a versão materna dela dos filmes. Ela ainda é a dondoca de Manhattan, mas é muito mais preocupada com questões sociais e abertamente disposta a ser melhor do que a criação que teve.

O Anthony (Mario Cantone) e a saída que dão para o Stanford, por conta da morte do Willie Garson, não são das melhores coisas, mas dá para passar e o que fica é a saudade de um ator e personagem incrível. Em relação ao Anthony propriamente dito, ele se apropria muito bem da “cota” de ser o novo amigo gay da turma e não perde sua espontaneidade e originalidade.

Os personagens novos talvez sejam as melhores coisas da série, no final das contas, em especial as novas três mulheres: Seema Patel (Sarita Choudhury), Lisa Todd (Nicole Ari Parker) e Nya Wallace (Karen Pittman). A primeira é uma nova amizade que a Carrie desenvolve, uma corretora de imóveis de luxo em Manhattan. A segunda é uma mulher negra, mãe de três filhos, casada e que integra o núcleo de Charlotte. Por fim, Nya é uma mulher também negra, professora do curso de doutorado no qual Miranda vai estudar, casada e com dilemas relacionados à maternidade.

Nem preciso dizer que o acerto vai além de sanar os problemas com a diversidade racial das temporadas originais. As três agregam demais na história de cada uma das personagens, dando às protagonistas a possibilidade de expandir o horizonte para além da amizade do trio. Sem a Samantha, as três encaram a vida real com a ajuda de outras mulheres além de si mesmas.

E, falando em Samantha, preciso destacar que a mulher fez falta demais, mas não por ter ficado alguma brecha na história de And Just Like That, mas porque Sex and The City nunca vai ser Sex and The City por completo sem ela. Por saber disso, a direção se esforçou em encaixar algumas trocas de mensagens sutis entre SJ e Carrie que ajudaram a aquecer o coração dos fãs mais órfãos, como eu. Inclusive, a breve interação entre a dupla no episódio final foi um prato cheio para a emoção dos fãs – mesmo sem esperanças de que Kim Cattrall encare a SJP para uma gravação na próxima temporada.

Outros pontos positivos e já característicos de Sex and The City: os figurinos estão incríveis, coloridos, diversos e dignos de uma série que sempre foi marcada pela moda – e serve para todos os personagens. Todos eles carregam sua identidade e personalidade nas roupas, desde as protagonistas e nossas antigas paixões até as personagens novas, a nova geração de filhos do trio de ouro de SATC e coadjuvantes. A trilha sonora também não deixa a desejar. A inserção de referências e menções a personagens passados também pega pelo coração nostálgico.

Em suma, acho que gostei porque, afinal de contas, é SATC, mas se não tivesse acontecido, não me faria falta. Também acredito que podiam ter fechado esse ciclo com essa única temporada, mas como nunca é demais explorar um grupo de fãs apaixonados, devemos ter mais de Sex and The City e And Just Like That em, pelo menos, mais uma temporada. (Que tenha o Aidan na próxima, por favor!)

Ah, se tratando de saudosismo, o roteiro terminou de enterrar os fãs com a chamada final do novo podcast da Carrie: Sex and The City. O mesmo nome da série e, para quem se lembra, da coluna que a Bradshaw assinava no The New York Star.

Nota: 7,5/10

Onde assistir?
HBO Max
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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