Desculpe o transtorno, mas o emocionante é o verdadeiro extraordinário


(Foto: Divulgação/Apple TV)

O que faz um filme ser considerado extraordinário? Sua atuação e elenco de estrelas, talvez. Uma boa história contada por uma boa direção, certamente. Um conjunto de boas escolhas em relação à fotografia, trilha sonora, figurino e maquiagem, é bem possível. Tudo isso somado à originalidade, provavelmente. Para mim, a resposta vai estar sempre na emoção.

Foi dada a largada na temporada de maratonas para o Oscar 2022 e, apesar de já estar assistindo a alguns dos indicados desde o ano passado, na última semana comecei a me dedicar pra valer e foi quando conheci – e me permiti ser conquistada – o filme CODA, traduzido para No Ritmo do Coração.

A história é simples, sem plot twist ou grandes reviravoltas, mas ela é pura e, acima de tudo, sensível. O clichê gira em torno de Ruby Rossi (Emilia Jones), a única integrante ouvinte da família Rossi, composta por, além dela, seu pai Frank (Troy Kotsur), seu irmão Leo (Daniel Durant) e sua mãe Jackie (Marlee Matlin), todos com deficiência auditiva. Por ser a única ouvinte, Ruby se apresenta como o grande elo entre sua família e a sociedade, sendo desde sempre intérprete da família.

Com tanta devoção e dedicação, os anos se passam e Ruby quase nunca se coloca em primeiro lugar, o que começa a mudar quando ela encontra o professor Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez), conhecido entre os alunos como Sr. V. É ele quem começa a apresentar à jovem um mundo de possibilidades frente ao que ela tanto ama: a música. Com um talento nato para cantar, Ruby começa a almejar ir para a faculdade de música e poder viver de seu sonho, mas com o peso que tem na vida dos seus familiares é difícil se desvencilhar e seguir em frente.

Em boa parte do filme entramos em contato com a surdez apenas através da comunicação em sinais feita por Ruby e seus pais e irmão, contudo, é na cena da apresentação da jovem no coral da escola durante o outono que CODA nos arrebata pela primeira vez. A família se esforça para comparecer na apresentação, mas é difícil se envolver 100% quando não se escuta nada em um musical e, em dado momento, a direção do filme opta por nos conectar com aquelas pessoas deixando o filme no mudo por completo também para os telespectadores. Ouvimos o que eles ouvem, ou seja, nada.

Essa cena me impactou e me lembro a cena final de The Sound of Metal, traduzido como O Som do Silêncio, filme de 2020 que concorreu no Oscar do ano passado e levou algumas categorias. Nesses detalhes a gente percebe o impacto e a importância do silêncio na sétima arte. O quanto ele pode dizer tudo enquanto não diz nada, literalmente.

Confesso que já nessa cena eu esperava por algo que viria a acontecer depois, achava que seria um bom jeito de coroar a sensibilidade que o filme já demonstrava ter.

Quando retornam para casa, em uma conversa bem íntima com o pai, Frank pede para que Ruby cante para ele a música que cantou na apresentação e, enquanto a jovem se emociona cantando, ele envolve as mãos em seu pescoço para “ouvir” a música a partir da vibração das cordas vocais dela. Aí, eu já tava chorando horrores, vocês podem imaginar.

E com o decorrer do filme, depois de uma série de perrengues familiares, a Ruby vai com a família para sua audição na faculdade. Durante a apresentação, os pais, que não podiam, entram pelos cantos para ver a filha cantando e ela, quando nota a presença deles, começa a traduzir a letra da música em língua de sinais.

Pronto, nesse instante eu já estava entregue.

Então, respondendo ao questionamento que fiz lá em cima, o que torna um filme extraordinário, para mim, vai ser sempre a emoção. O quanto ele é capaz de emocionar – e quando ele consegue através da simplicidade, isso demonstra mais ainda o seu brilhantismo.

Hollywood tem buscado ser mais inclusiva e, independente dos motivos maiores que possam estar por trás, isso será sempre uma coisa grandiosa. Do ano passado para cá, a inclusão de pessoas surdas no cinema e na televisão, em produções de destaque, foi enorme e esse é um passo importante. Inclusive, o ator que interpreta o Frank, o Troy Kotsur, está indicado na categoria de melhor ator coadjuvante do Oscar 2022, sendo o primeiro ator surda a conseguir esse feito – já entrou para história e se ganhar será maior ainda!

Em Eternos tivemos a Makkari, interpretada pela atriz Lauren Ridloff, e tivemos a Echo/Maya Lopez em Hawkeye, papel da Alaqua Cox, que além da deficiência auditiva, também possui deficiência física. Ambas as produções são da Marvel, que tem se mostrado cada vez mais diversa e inclusiva – apesar de seguir com um elenco polêmico, não podemos negar.

O fato é que CODA é um filme emocionante, sensível, simples e singelo. Consegue grandes feitos sem precisar ser uma produção grandiosa (em efeitos e enredo). Apesar do enredo considerado clichê, o seu maior acerto é em não tentar não desenvolver um roteiro maior do que seus atores e atuações, que são o verdadeiro destaque e brilho da produção.

Por mim, o filme podia levar o maior prêmio do Oscar, de melhor filme, por tanta delicadeza. Não tem nada mais acertado e vitorioso do que incluir, emocionar e sensibilizar de maneira genuína e humilde. Não precisou apelar, não forçou narrativa. No Ritmo do Coração se deixa fluir e é por isso que sua batida é tão envolvente.

Ps: a voz da Emilia Jones me lembrou a voz da Mandy Moore em Um Amor para Recordar. E ela é a atriz que faz a filha do Dexter (Jim Sturgess) em Um Dia.

Onde assistir? Prime Video
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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