RESENHA: Drive My Car


(Imagem: Divulgação/Bitters End)

Após vencer um dos prêmios do Oscar de 2020, Bong Joon-ho, o diretor de Parasita (2019), falou no discurso que, caso os votantes, público presente e quem assistia em casa se propusesse a assistir filmes com outras linguagens, ultrapassando a barreira das legendas, iriam conhecer histórias incríveis. Ele está certo, e Drive my Car chega para provar isso. Não o coloco no mesmo nível de qualidade de Parasita, porém, não mereceria passar despercebido só porque foi feito do outro lado do mundo. Essas palavras deixarão um legado importantíssimo para toda a indústria de cinema.

Yusuke (Hidetoshi Nishijima) é um diretor de teatro e vive com a esposa Oto (Reika Kirishima), uma roteirista. Os dois estão juntos há um tempo, estando dispostos a ajudarem um ao outro, tanto na vida pessoal,, quanto na profissional. Quando Yusuke é convidado para dirigir uma peça em outra cidade, ele começa a conviver, durante as idas e vindas do percurso entre trabalho e casa, com uma motorista particular, a Misaki (Toko Miura). Com as conversas triviais entre as viagens, os dois compartilham traumas e dilemas em comum, contribuindo para o amadurecimento de ambos.

O longa começa com um imenso prólogo, condizente com a duração total do filme, que é de três horas. Pode até assustar, mas esse artificio do roteiro serve para nos ambientarmos ao dia a dia daquelas pessoas que acabamos de conhecer, construindo alicerces que ditarão as personalidades deles, principalmente a do Yusuke. Ele é calmo, racional e disposto a permanecer em uma zona de conforto. Não é necessariamente um estudo de personagem completo, já que só o conhecemos depois de ter experienciado diversas coisas e com uma certa idade. Entretanto, outras camadas só aparecem no desenrolar da história.

Outro aspecto positivo que acompanha as três horas, é a calma para irmos entrando no enredo aos poucos. A introdução dos personagens e as revelações são feitas sem pressa alguma. Até mesmo os diálogos são construídos de forma natural. Em um dos mais importantes de todo o filme, a conversa dura por mais de dez minutos e mesmo assim os nossos olhos não desgrudam da tela. É uma aula de atuação e também um ótimo trabalho do diretor Ryusuke Hamaguchi, o responsável por “roubar” a vaga do Denis Villeneuve na categoria de ‘Melhor Direção’.

O Hamaguchi entrega um filme reflexivo. Ele nos faz indagar certas atitudes daqueles personagens e quando paramos para pensar, estamos nos questionando sobre o que faríamos caso estivéssemos no lugar deles. Eu mesmo, olhando de fora, com certeza tomaria decisões diferentes, ao mesmo tempo em que o que eles fazem não parece contraditório. Quando estamos dentro do carro com o Yusuke e a Misaki, percebemos a característica introspectiva da trama. Ambos precisavam daqueles momentos compartilhados para entenderem mais sobre si mesmo e superarem o que os atormentavam.

O representante do Japão no Oscar para a categoria de ‘Melhor Filme Internacional’ é um forte candidato e que também chega com força no prêmio mais importante da noite, o de ‘Melhor Filme’. Isso é fruto da grande influência acontecida há dois anos e que, para a nossa felicidade, tem tudo para durar por muito tempo e com diversos outros países recebendo um lugar ao sol.

Nota: 9/10

Onde assistir? MUBI
Micael Menezes
Micael Menezes

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