Desculpe o transtorno, mas nada mais ~magic~ do que uma black girl


(Foto: Reprodução/Netflix)

Eu nunca entendi muito sobre moda, mas nos últimos anos decidi estudar mais sobre o assunto. A ideia era entender para além de tecidos e combinações, e realmente conceber a moda como um aspecto de identidade e expressão social, além de ato político. Numa dessas de tentar me aprofundar no assunto, esbarrei no reality show de designers Next In Fashion, disponível na Netflix, e a partir dele cheguei ao Styling Hollywood, também na plataforma vermelhinha.

SH é uma espécie de reality documental lançado em agosto de 2019, estrelado por Jason Bolden e seu marido, Adair Curtis, que é designer de interiores. Logo no primeiro episódio, Bolden fala sobre o conceito “Black Girl Magic”, ferramenta que ele utiliza para empoderar as mulheres com as quais ele trabalha, a exemplo de Stormi Reid, Yara Shahidi, Gabrielle Union e Vanessa Hudgens. Ele, sendo um homem preto e gay, sabe da importância de trabalhar a autoestima dessas estrelas hollywoodianas da A-list, mas que ainda assim são minorias sociais.

Ps: para quem não sabe, a mãe de Vanessa é filipina, logo, ela tem descendência asiática.

O termo

Em 2013, a partir de um discurso da então primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, CaShawn Thompson definiu o termo #BlackGirlsAreMagic, que futuramente se tornou Black Girls Magic. A ideia da frase é se apropriar de forma positiva da associação que existe entre a população negra e o misticismo. Thompson propôs uma ressignificação do termo a fim de celebrar coragem, estilo, poder, expressividade, beleza, sucesso e outras manifestações que transformam mulheres negras em magníficas.

Depois disso, em 2016, Julee Wilson trouxe a seguinte definição para o conceito: “usado para definir aquela impressão de maravilhosidade universal que nós mulheres negras sentimos. É sobre celebrar tudo aquilo que nos inebria, inspirando ou nos surpreendendo sobre o que há de melhor em nós mesmas”, e é exatamente isso. Ou seja, passando por cima das críticas e associações racistas à negritude ser mística ou possuir alguma espécie de poder “sobrenatural”, o Garota Negra Mágica fala de experiências objetivas e palpáveis, que nos possibilitam ser exatamente quem nascemos para ser, seja no individual ou no coletivo.

É uma celebração de uma tradição que permanece existindo e resistindo, mesmo diante do racismo e outras opressões. É um conceito que se assemelha muito ao ideal por trás do Afrofuturismo, mas isso é papo para outro dia.

Em relação ao Jason Bolden e esse conceito de Black Girl Magic, a ideia é usar a moda como uma forma de celebração. O próprio designer menciona no episódio que trabalha diretamente com várias dessas Mulheres Negras Mágicas. O trabalho acontece diretamente com a imagem delas e a partir da moda, das roupas, ele as empodera e ressalta ainda mais a força e o poder de cada uma dessas atrizes.

As mulheres negras, vistas como as últimas na pirâmide social, estão entendendo a importância de celebrarem suas ancestralidades. A gente pode ver isso por meio do culto às raízes que ultrapassa o vestuário e chega nas produções, nos trabalhos, nos discursos e nos posicionamentos, como mencionei sobre o Afrofuturismo. Yara Shahidi, as gêmeas Halle e Chloe Bailey, a própria Beyoncé, Rihanna, Viola Davis, Octavia Spencer, a Taraji P. Henson, Michelle Obama, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, dentre tantos outros nomes que nos remetem à mágica de carregar toda essa força e potência em nossos sangues.

Portanto, todo esse discurso que mistura negritude e moda é para reforçar que, graças a essas Mulheres Negras Mágicas, alcançamos mais um lugar de representatividade ao poder nos enxergar nos red carpets, por exemplo. Um lugar que parece bobo ou fútil, mas que diz muito ao se pensar em como a indústria cinematográfica de Hollywood se sustenta em estereótipos patriarcais e racistas. Contudo, mais do que isso, é poder enxergar lugar não só no tapete vermelho, mas nos bastidores também, em posições que há muito dizem que não nos cabem.

Entrei em contato com esse conceito há alguns anos, mas fui remetida à ele durante o Screen Actors Guild Awards (SAG Awards), quando vi o styling do Jason Bolden nas atrizes Demi Singleton, Vanessa Hudgens e Cynthia Erivo no white carpet – aproveitando o gancho, saiu nas nossas redes sociais (TikTok @oiclubinho e Instagram @clubecafedamanha) uma sequência de vídeos sobre os looks do SAG 2022.

Bolden e Curtis são exemplos de negros bem-sucedidos, que, além da cor da pele, enfrentam os desafios ligados à sexualidade e seguem perseguindo seus sonhos e desejos diante da sociedade. Inclusive, durante a participação no Next In Fashion, Jason ressalta que sente, em diversas situações, a necessidade de ter que se impor, por ser quem é. Não é fácil, mas felizmente vemos cada vez mais exemplos que nos dizem que, ao menos, é possível.
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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