RESENHA: Ataque dos Cães


(Foto: Divulgação/Netflix)

“Salva minha vida da espada, livra o meu ser do ataque dos cães” (Salmos 22:20)

O que você faria para salvar a vida de alguém que ama? Até que ponto você iria para proteger o bem-estar de uma pessoa amada? Quais os limites você cruzaria para garantir que essa pessoa ficasse bem? São alguns dos questionamentos que podem surgir a partir do filme The Power of the Dog, traduzido no Brasil para Ataque dos Cães. A produção é dirigida por Jane Campion, a primeira mulher a ser indicada duas vezes na categoria de Melhor Direção do Oscar – incluindo a deste ano, – e está disponibilizada na Netflix.

A partir daqui teremos spoilers.

A história de Ataque dos Cães acompanha dois irmãos, Phil (Benedict Cumberbatch, de Doutor Estranho) e George (Jesse Plemons, de Breaking Bad), ricos e donos de uma das maiores fazendas de Montana, mas com personalidades opostas. Enquanto George é doce e gentil, Phil é um carrasco, grosso e que esconde seu brilhantismo atrás de crueldade. Com um ar de submissão, George muda o jogo quando decide se casar com Rose (Kirsten Dunst, de Homem-Aranha), uma viúva com um filho adolescente, inclusive do qual Phil já praticou bullying, o Peter (Kodi Smit-McPhee, de 2067). A estadia de Rose na casa Burbank tira a paz de Phil, que faz de tudo para infernizar a vida da mulher e do casal.

Peter não mora com a mãe e o padrasto por conta dos estudos, mas no verão decide visitar o rancho. A recepção começa caótica, visto que Phil não se dá bem com a nova família, mas aos poucos ele e o garoto vão se dando bem. Na contramão dessa boa relação, Rose se afunda cada dia mais no alcoolismo, justamente por odiar essa aproximação do filho com o cunhado e por duvidar das boas intenções do “irmão mau" dos Burbank.

Phil tem um jeito “bronco” e esse adjetivo é que dá nome à, possivelmente, a grande paixão do rapaz no filme. Não chegamos a ver, mas ele menciona em dado momento da história – quase um flashback de Brokeback Mountain.

O filme é bem arrastado, demora para engatar e confesso que me deu sono em toda sua primeira hora. Mas, quando a história começa a ganhar ritmo, fica claro que toda a demorada era uma construção minuciosa de um enredo denso, permeado de relações de poder, opressão, sexualidade e sensualidade, ainda que não tenha nenhuma cena sequer de sexo – a energia erótica que esse filme exala é surreal, sério! Esse ponto é de total mérito da direção e da produção do filme, que montam uma estrutura técnica de câmeras e fotografia incrível.

Apesar de não conhecer a fundo os trabalhos anteriores de Campion, com uma breve pesquisa é possível descobrir que esse estilo de cinema é uma marca quase que registrada da diretora. Em entrevistas recentes ao The Guardian, Jane afirmou sentir que o movimento #MeToo possibilitou novos caminhos para as direções femininas em Hollywood, fazendo com que, apesar de inicialmente “intimidada” com a narrativa de Ataque dos Cães centrada num universo bem masculino, ela percebeu que tinha esse espaço por conta dessas mulheres e suas denúncias frente ao abuso sistemático da maior casa do cinema mundial.

A produção da Netflix é o primeiro filme de Campion após 12 anos afastada da cinematografia. Seu último trabalho foi o filme Brilho de Uma Paixão, lançado no Brasil em 2010, que aborda o romance do poeta John Keats e a estudante de moda Fanny Brawne. Ele está disponível no Prime Video, se alguém se interessar.

Voltando a Ataque dos Cães, se a primeira metade da história é cansativa, a segunda metade é envolvente e encaminha bem o enredo para a reviravolta final – e que reviravolta. Sutil e, ao mesmo tempo, arrebatadora. Depois que Rose doa todas as peças de couro cru de Phil e ele se revolta, o jovem Peter, que dias antes tinha retirado ele mesmo o couro de uma vaca, afirma ao “tio” que possui as peças que ele precisa para finalizar uma corda de montaria. Peter entrega as cordas a Phil que, mesmo com a mão machucada com uma ferida aberta, lava o couro e finaliza a corda. Na manhã seguinte, o rapaz não se sente bem e, enquanto no filme se passaram dias, para nós, telespectadores, são menos de cinco minutos entre a ida de Phil ao médico e a cena de seu irmão escolhendo seu caixão.

Enquanto mil interrogações surgem na cabeça de quem assiste, o filme continua até dar respostas sutis, incluindo uma referência ao Salmo mencionado lá em cima. O trecho, em inglês, é lido por Peter enquanto está em casa, sem ter ido ao funeral de Phil: “deliver my soul from the sword; my darling from the power of the dog”. A cena segue e vemos o jovem ‘Pete’ observando sua mãe e seu padrasto, George, pela janela, dançando juntos na área externa da casa. Antes disso, nos deparamos também com uma cena de “alívio” entre a mãe de Phil, sogra de Rose, e ela durante o sepultamento do primogênito Burbank. Todos parecem ter se beneficiado com a morte do carrasco – inclusive Rose, que não precisa mais se embriagar.

O final do filme faz uma ligação direta com seu começo. E, nesse ponto, se eu não mencionei antes, preciso ressaltar que o pai de Peter, o primeiro marido de Rose, cometeu suicídio. O filho o encontrou morto, enforcado. Diante disso, o filme se inicia com a seguinte narração de Peter: “quando meu pai faleceu, eu só queria a felicidade da minha mãe. Que tipo de homem seria se eu não ajudasse minha mãe?”.

Como eu disse anteriormente, a primeira metade do filme consolida os detalhes sutis que traçam o caminho até o final. Desde a narração de Peter, ao fato de que Phil não tocava em vacas que foram mortas por conta da antraz, uma doença infecciosa – e a vaca da qual Peter retira o couro estava doente. Ao colocar a mão na água em que o couro cru estava, enquanto sua mão tinha uma ferida aberta, fez com que ele se contaminasse também. O garoto sabia disso, estudava para ser médico e, ao retirar o couro, o fez usando luvas, ressaltando que sabia do perigo.

Detalhes, detalhes.

Esse é o cinema de Jane Campion. Misterioso, recheado de suspenses e respostas sutis, que são dadas aos poucos no que parece um filme arrastado e desnecessário. Merece cada uma de suas indicações, tomara que leve alguma.

Benedict Cumberbatch, nosso Phil, entrega com muita maestria seu protagonista com ar vilanesco. Ele tem muitas camadas e o ator sabe desenvolver bem cada uma delas, não à toa se juntou a Andrew Garfield (tick, tick...BOOM!), Will Smith (King Richard), Javier Bardem (Being the Ricardos) e Denzel Washington (The Tragedy of the Macbeth) na indicação por Melhor Ator no Oscar 2022. Kodi Smit-McPhee faz jus à indicação de Melhor Ator Coadjuvante (ao contrário de Jesse Plemons), quando o filme começa não sabemos o que vem pela frente em relação ao seu personagem e somos positivamente surpreendidos.

Sobre Kirsten Dunst, gosto da atriz, apesar de achá-la sem carisma na maior parte dos personagens, mas ela se desenvolve bem na segunda metade da história. Talvez, em comparação às outras atrizes indicadas na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, ela seja a que brilhe menos, mas ainda assim é justificável seu nome ali.

Nota: 8.5/10

Onde assistir? Netflix
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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