Silenzio, Bruno: Luca e a coragem de ser você mesmo – e encontrar seu lugar


(Foto: Divulgação/Pixar)

A parceria Disney-Pixar é responsável por boa parte das animações mais emocionantes já feitas nos últimos tempos, isso é inegável. Enquanto algumas produções se sobressaem mais do que outras, em geral pelo enredo mais amplo e filosófico; existem outras que conseguem alcançar sutilmente em alguns pontos que garantem interpretações distintas para quem assiste, tocando assim públicos variados e de formas diversas. Foi assim com Luca, na minha opinião.

Luca é uma animação dos estúdios Disney-Pixar, indicada ao Oscar 2022 na categoria de Melhor Filme de Animação, onde concorre junto com outros nomes da Disney como Encanto e Raya, além de Flee e A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas – esse último da Netflix. Seu enredo se passa numa cidade fictícia da Riviera Italiana, acompanhando as aventuras de Luca e Alberto.

Os dois protagonistas são criaturas marinhas que, quando na superfície, ganham a forma de seres humanos e se aproveitam disso para se aventurar na pacata cidade de Portorosso. Lá, em busca de ganharem uma Vespa, eles conhecem Giulia e junto a ela vão viver uma história de amizade e aceitação.

A cidade de Portorosso é famosa por seus caçadores de monstros marinhos, as criaturas que Luca, toda sua família, e Alberto são. Por isso, é extremamente arriscado essa aventura deles pela superfície, visto que em contato com a água eles voltam a forma marinha, mas, para eles, não é nada que um “silenzio, Bruno!” não resolva.

A amizade dos dois, na verdade dos três, considerando a Giulia, passa por uma série de desafios e culmina em um final emocionante e encantador. Sendo assim, por que Luca foi considerado por alguns como “um dos filmes mais fracos da Pixar?”

Sinceramente, eu não sei, mas a minha teoria é justamente por ele tocar de forma distinta as pessoas, cada uma com base na sua interpretação – e agora eu vou dar a minha.

Ao meu ver, o filme é uma metáfora LGBTQIA+, e eu não estou necessariamente dizendo que o protagonista é bi/pan/homossexual ou afins. Do meu ponto de vista, não precisa ser tão específico para falar sobre o assunto – mas, pode ser também, porque há teorias de que Luca e Alberto poderiam se gostar e tudo mais. Não é essa a questão aqui.

Luca, sua família, e o próprio Alberto enquanto criaturas marinhas são vistos com aversão pelos humanos de Portorosso. Essas pessoas diferentes só são aceitas quando estão camufladas e disfarçadas, ganhando passabilidade entre os considerados “normais”. Portorosso afasta e recrimina o que difere do que eles aceitam como padrão – e isso pode ser até além da sexualidade, que foi o ponto que eu trouxe. Para mim, essa questão da orientação sexual fica mais forte, porque é como se eles precisassem estar sempre presos na realidade do fundo do mar, do armário.

A teoria ganha força quando no final do filme a avó do Luca diz que não vão ser todas as pessoas que vão aceitar ele do jeito que ele é, mas que outras vão e ele sabe bem encontrar essas.


(Foto: Divulgação/Pixar)

Eu acredito que o filme alcance lugares diferentes dentro das pessoas a partir disso. Para alguns, ele traz sensibilidade em um assunto difícil de ser tratado, enquanto ser aceito por uma sociedade que lhe nega a existência – e exatamente com essas palavras, pode ir além da sexualidade, passando pela questão racial, por exemplo. Para outros, é um filme sobre a beleza de uma amizade que enfrenta junto uma série de desafios e essa abordagem também chega em um lugar profundo e delicado para muitas pessoas. 

Outra questão do filme é o fato de tratar com muita naturalidade a deficiência física. O pai de Giulia, Massimo, não tem um braço e isso é colocado no filme de forma muito casual, principalmente quando ele diz que já nasceu assim. A relação parental que o personagem desenvolve com o Alberto também toca na questão do abandono paterno que o pequeno jovem sofre em relação ao seu pai biológico, que o deixou – e isso se reflete em seu medo de ser abandonado por outras pessoas, como pelo próprio Luca.

Por fim, Luca não deixa de ser uma produção clássica da parceria Disney-Pixar, com mensagens sobre amizade, sobre família, sobre entender quem se é e ser aceito, sobre pertencimento. Como li em algum lugar, é sobre a coragem de ser você mesmo. Trata de amadurecimento, com elementos da jornada do herói e uma estética belíssima, colorida e digna da beleza da Itália. Não tão filosófico quanto outros títulos da casa, como Soul e DivertidaMente, mas ainda assim mais uma da série: animações que significam muito para adultos.

Possivelmente não será o vencedor do Oscar, visto que minha aposta é em Encanto, justamente por ele chegar em um lugar mais “geral” de emoção, com um enredo mais potente – o que não quer dizer que Luca não seja, mas enfim, é diferente. Além disso, a trilha sonora de Encanto, assinada por Lin-Manuel Miranda, e a fotografia é uma experiência à parte.

De qualquer forma, o filme vale o seu tempo. Luca, Alberto e Giulia são um trio divertido e quem é cria de Harry Potter vai entender como uma boa amizade entre três pessoas em prol de resolver algo é encantadora. A direção é de Enrico Casarosa, que também assina o curta Ciao, Alberto, spin-off do filme e disponível no Disney Plus, ambos. Casarosa já concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Animação em Curta-Metragem com La Luna, em 2012.

No elenco de dublagem, temos nomes conhecidos do público como Jacob Tremblay (O Quarto de Jack e Extraordinário) como Luca, Jack Dylan Grazer (It: A Coisa) como Alberto, Giacomo Gianniotti (Grey's Anatomy) como Giacomo, Emma Berman como Giulia, Maya Rudolph (Gente Grande e Missão Madrinha de Casamento) como Daniela, Jim Gaffigan (The Jim Gaffigan Show) como Lorenzo, Sacha Baron Cohen (Borat e Os Sete de Chicago) como Tio Ugo, entre outros.

Nota: 9/10

Onde assistir? Disney Plus

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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