Desculpe o transtorno, mas o que mais é arte senão os detalhes?


(Foto: Divulgação/Star+)

Wes Anderson disse uma vez que o mundo é feito de detalhes. O diretor, conhecido principalmente pelo trabalho em O Grande Hotel Budapeste, tem como características um cinema de visual simétrico, quase infantil com cores pastéis e também saturadas, personagens expressivos e caricatos, câmera lenta em momentos inesperados, planos abertos, seu elenco corriqueiro, entre outras.

No roteiro, as histórias são sempre contadas a partir dos ambientes, com um local como protagonista. Contudo, esse protagonismo não anula as vidas e suas próprias histórias vividas ali. É assim com Hotel Budapeste e é assim também com o trabalho mais recente no filme A Crônica Francesa. Tem resenha sobre o filme aqui no blog, mas hoje eu queria ir mais além.

A Crônica Francesa se passa nos bastidores de uma revista americana localizada numa cidade fictícia da França. O foco do filme, na realidade, é ilustrar algumas das histórias contadas naquela que seria a última edição da revista. Funcionando como uma aula de cinema, The French Dispatch (o nome original do filme) é também uma homenagem incrível ao jornalismo literário, com seus personagens excêntricos e histórias bem contadas.

Eu fico sempre fascinada com obras que abordam, de alguma forma, o jornalismo. E, dentro da narrativa do Wes, a coisa toda fica ainda mais bonita. O filme, que vem desse histórico do diretor de explorar as cores e colocá-las como parte também da história, estabelece bem isso no momento em que, quando quer colocar o foco na história contada, deixa as cenas em preto e branco. Você não tem a possibilidade de se apegar em outros detalhes senão no que está sendo contado ali. E o texto, por derivar desse jornalismo literário, é repleto de descrições que envolvem você. Ou seja, o que você não vê em cores de fato, você imagina a partir do descrito.

São cinco histórias diferentes ambientadas nessa mesma cidade francesa, a Ennui-sur-Blasé, que se convertem em cinco “partes” de um mesmo filme. A primeira pode ser considerada a mais “fraca”, e é também a mais curta. Owen Wilson, no papel de Herbsaint Sazerac, é o jornalista da seção de viagem da revista e se atenta em nos apresentar, com detalhes, essa pequena cidade que está no centro da narrativa. Seus becos, gatos preguiçosos, esquinas e arquiteturas são descritos e valorizados a partir do ponto de vista do repórter – enquanto acompanhamos seu texto em imagens através de um passeio de bicicleta.

É a França interiorana dos anos 60.

A segunda história, intitulada de The Concrete Masterpiece, traz Tilda Swinton como a jornalista J.K.L. Berensen, que escreve sobre arte. O foco da sua reportagem é o artista Moses Rosenthaler, interpretado por Benicio del Toro, que está em um presídio voltado para pessoas com doenças psicológicas e psíquicas por ter cometido um assassinato em um momento de “descontrole” e “fúria”. Sua arte deriva da sua paixão pela carcereira Simone (Léa Seydoux).

Nessa história também aparece Adrien Brody, como um ex-detento e negociante de arte. Ao reconhecer o potencial artístico de Moses, Julien Cadazio vai atrás de financiadores e compradores de arte, bem como se mantém incentivando o preso a pintar. É a partir dessa reportagem que temos os momentos da narrativa em preto e branco, com foco no que está sendo contado. Apenas durante os cortes para a jornalista contando seu próprio texto e os enfoques na arte do Rosenthaler é que temos cor.

Na terceira história temos, dentre outros atores, a dupla Frances McDormand como Lucinda Krementz e Timothée Chalamet como Zeffirelli. A trama envolve a produção de um manifesto estudantil e abre margem também para a discussão da ética e imparcialidade jornalística. Aqui, a repórter se coloca no texto e sai do local apenas de narradora. Mais uma vez, a história é inteiramente contada em preto e branco, apontando em alguns momentos as cenas coloridas.

Minha história preferida é basicamente a última. Jeffrey Wright interpreta Roebuck Wright, um repórter da seção de sabores e cheiros, ou seja, culinária. Aqui, enquanto você espera um perfil sobre o renomado cozinheiro do departamento policial de Ennui-sur-Blasé, nos deparamos com um sequestro e um conto policial que, por incrível que pareça, não perde o fio condutor da seção: a culinária e o próprio protagonista, o chef Nescafier (Steve Park).

A história aqui é contada anos depois, pelo próprio repórter, durante uma entrevista, quando ele reforça que lembra exatamente de cada palavra que já escreveu na vida. Foi com ela que eu mais me conectei, talvez pela discrepância do que foi proposto e do que realmente é, ou talvez pelo diálogo final do repórter com seu editor. Ali aponta exatamente a sensibilidade que o jornalista precisa ter diante de uma história para entender o que é o seu ponto mais importante. O que é realmente essencial. E foi com uma frase que o personagem até então heroico se colocou em um lugar de vulnerabilidade e deu a chance do telespectador se conectar e se identificar com ele: “eu não sou corajoso. Eu só não quero decepcionar todo mundo”, disse Nescafier.

Assim como em outros filmes do cineasta, temos um personagem responsável por “colar” todas as partes da história, em A Crônica Francesa isso fica por conta do Arthur Howitzer Jr de Bill Murray. O editor-chefe da revista é quem encoraja todos os seus repórteres na busca por suas histórias e, acima de tudo, assume o papel de não deixar nenhum deles para trás naquela que seria a última edição.

A morte do editor, que acredita-se ter sido inspirado em Harold Ross, fundador da The New Yorker, se transforma no obituário que integrará essa última edição da revista e vai mais além, sugerindo o fim dessa era clássica desse tipo de impresso, que parece ter morrido junto com Ross na década de 1950.

Por fim, a gente retoma a essência do diretor ao lembrar que o elemento nostalgia também se faz presente, seja pelo encerramento de uma era ou até mesmo pelas memórias dos repórteres resgatando suas histórias. Nostalgia esta que se apresenta como um tema comum em todos os filmes do Wes Anderson, sendo elemento conectivo de todo esse “wesverso”.

No fim das contas, mais do que jornalismo e cinema, The French Dispatch é uma homenagem à arte, de maneira geral. Literatura e cinema sim, mas também arquitetura, culinária, política, pintura e aos heróis da “vida real”. Sejam eles um artista “louco”, um estudante revolucionário, um chef de cozinha ou os próprios jornalistas, escritores e narradores dessas histórias, que ora estão observando-as, ora estão dentro delas, como parte do todo. Wes consegue expor essa paixão pela arte enquanto debate exploração financeira, abuso de poder, violências, relações parentais e de trabalho, etc.

Wes Anderson disse uma vez que o mundo é feito de detalhes e o que ele fez em A Crônica Francesa foi dar aos detalhes a chance de serem protagonistas. São os detalhes que transformaram as histórias em grandes reportagens e as grandes reportagens em cinema. Ou seja, como sempre acontece quando me deparo com os filmes do diretor, sai encantada. Mais apaixonada ainda por contar histórias, por perceber os potenciais delas enquanto se desenrolam, por enxergar seus detalhes, por me colocar dentro do enredo quando for necessário e sempre ter a sensibilidade de saber quando é a hora de só observar e ouvir para, quando chegar a hora, escrever como quiser, mas tentar parecer que escrevi assim de propósito.

Nota: 9/10
Onde assistir? Star+

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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