Desculpe o transtorno, mas, assim como Ted Lasso, acredite no acreditar


(Foto: Reprodução/AppleTV+)

A gente cresce aprendendo que gentileza gera gentileza, mas, depois de um tempo, é possível perceber que essa retribuição só acontece quando a outra pessoa está disposta a encarar a situação com humildade. Dito isso, sou entusiasta da ideia de que devemos fazer as coisas sem esperar nada em troca, porque somos responsáveis pelo que fazemos e damos, não pelo que recebemos de volta das pessoas.

Esse pensamento ficou ainda mais claro pra mim depois de assistir Ted Lasso, uma das séries mais promissoras dos últimos anos e que está disponível na AppleTV+. Antes de continuar, deixa eu te dizer que esse texto contém spoilers das duas temporadas da série, inclusive do plot do último episódio. Se continuar lendo, é por sua conta e risco, mas se quiser parar, nossa amizade continua, prometo – basta você voltar aqui depois de assistir.

A premissa da série envolve comédia, futebol e uma pitada de drama com seu protagonista sendo um homem branco e que ganhou uma super promoção profissional sem nenhuma recomendação. Falando assim, parece uma produção que exala a energia hétero top, mas, nesse caso, só se fosse o Lucas Bissoli, pois é um hétero top do bem. Ted Lasso (Jason Sudeikis), o protagonista que nomeia a série, é gentil, generoso e tem uma característica que falta em muita gente: ele, genuinamente, enxerga as pessoas.

O enredo começa com Ted saindo do Kansas direto para Londres, onde foi contratado para ser o novo treinador do Richmond Futebol Clube. O problema é que Lasso tem uma experiência nula com o futebol britânico, que é igual ao nosso, pois em sua cidade natal atuava como técnico do chamado futebol americano. Sua contratação se justifica através de Rebecca Welton, interpretada por Hannah Waddingham, que depois de arrematar o clube de futebol na partilha do divórcio, decide destruí-lo – visto que seu ex-marido afirma que o clube é a coisa que ele mais ama nesse mundo.

No rol de personagens ainda temos Jamie Tartt (Phil Dunster), jogador de posição de ataque no Richmond e de ego infladíssimo, se achando a pessoa mais importante do time; Roy Kent (Brett Goldstein), que também joga na posição de ataque, mas enquanto Jamie está começando a carreira, Roy já ultrapassou os 30 e poucos anos e é considerado velho para continuar jogando; Keeley Jones (Juno Temple), uma influenciadora digital que namora com Jamie e depois se envolve com o Roy, mas, ao contrário do que parece, seu desenvolvimento vai muito além de ser parte de uma relação amorosa na série, e outros que valem ser mencionados, como: Leslie Higgins (Jeremy Swift), Sam Obisanya (Toheeb Jimoh), coach Beard (Brendan Hunt), dra. Sharon (Sarah Niles) e Nathan, interpretado por Nick Mohammed.

Como eu disse, Ted é uma pessoa gentil, que enxerga as pessoas e que carrega consigo o lema de acreditar. Na vida, nas pessoas, no lado bom das coisas e, principalmente, na esperança. Esse olhar otimista para as situações e atento para quem está ao seu redor é o que vai, aos poucos, transformando o dia a dia do Richmond FC. Ele aprende as regras do jogo, conquista a torcida, ganha o respeito dos jogadores e, acima de tudo, consegue dobrar a Rebecca – que decide, realmente, investir no clube ao invés de jogá-lo na sarjeta.

Durante tudo isso, ele também ganha um lugar especial na vida de seus colegas de trabalho, seja fazendo com que eles sejam notados ou seja fazendo com que eles notem as demais pessoas. Com Rebecca, por exemplo, ele mostra todo o potencial do clube, mostra os jogadores, suas histórias e a envolve nesse crescimento e nessa relação. Permite que ela enxergue essas pessoas. Já com o Nate, o caminho é inverso, ele oportuniza o crescimento do assistente que viria a compor o time de técnicos e faz com que as pessoas enxerguem ele, o potencial dele no trabalho e quem ele é enquanto ser humano. É por isso que, quando chegamos na segunda temporada e percebemos a mudança de comportamento do Nate, ela não parece justificável.

Na verdade, ela pode até ser justificável, mas temos que concordar que o rapazinho direcionou sua raiva para a pessoa errada. Ele leu a situação da forma correta, mas interpretou de maneira distorcida e, ao invés de tentar entender ou buscar explicações, apenas internalizou e isso se transformou em algo muito maior e mais difícil de ser revertido. E aí, nosso pequeno wonder kid virou o possível grande vilão da próxima temporada de Ted Lasso.

Calma que eu explico melhor.

Desde a primeira temporada, nós acompanhamos todas as agressões verbais e psicológicas que o Nate sofre por parte do time. Por trabalhar como assistente, recolhendo chuteiras, distribuindo toalhas limpas e lavando uniformes, Nathan parece não ser digno de receber atenção e respeito, de acordo com o comportamento dos jogadores, e isso começa a mudar com a chegada de Lasso.

Ted Lasso trata Nate bem, escuta ele, dá a chance dele expor suas ideias e isso vai cativando o jovem. No final da primeira temporada, o assistente de limpeza e manutenção se transforma em um dos técnicos, tendo voz e respeito entre seu time. Quando o segundo ano da produção começa, depois do rebaixamento do Richmond, os jogadores precisam de um incentivo a mais e Roy Kent, que havia se aposentado após uma lesão, retorna ao clube como quarto técnico.

Nesse momento, parece que Nate sente que não tem mais a mesma importância. Apesar de não ficar explícito que foi a partir daí que as coisas mudaram, enquanto telespectadora percebi que pode ser sido o gancho. Nessa mesma temporada é possível assistir o “wonder kid” sofrendo micro agressões, tão micro que soam até sutis e passam despercebidas, mas para quem sente nunca é assim.

Nathan sente-se invalidado, ignorado e até mesmo abandonado, como ele próprio diz ao Ted em seu discurso no último episódio. Ele não tem direito aos mimos que os jogadores recebem do marketing, ele afirma que não leva os créditos pelas estratégias que monta, ele não tem direito de reservar uma mesa chique em um restaurante e mesmo quando assedia uma mulher, ele passa batido por ser considerado “inocente”, dentre outras coisas que vão se acumulando. Diante disso, ele começa a interpretar todas as brincadeiras e comentários mais engraçados como humilhantes, gestos que até então seriam de admiração, ele tira por chacota e até mesmo a ausência de uma foto, que ele deu de presente a Ted, na sala do treinador no clube parece ser inferiorizante – quando, na verdade, essa tal foto está na casa de Lasso ao lado de fotos de seu filho, para ver a importância que ele dava o Nate.

Ao mesmo tempo em que tudo isso está acontecendo, a gente vê esse mesmo Nate cuspindo em seu próprio reflexo em diversas situações, o que pode ser considerado como uma analogia à como ele sente repulsa de si mesmo – ou melhor, dessa pessoa que ele está se tornando. Retomando o que eu disse no começo do texto, gentileza gera gentileza apenas quando a outra pessoa enxerga humildade no que fazemos. Caso contrário, pode ser lida como soberba.

Rebecca enxergou a humildade da gentileza de Ted Lasso e aprendeu a ser gentil de volta, vulnerável e, logo, uma pessoa melhor a partir desse olhar carinhoso que o treinador ofertou a ela. Por outro lado, Nate enxergou a gentileza de Lasso com arrogância e distorceu os acontecimentos, falas e situações, se transformando em alguém cruel, rancoroso e disposto a passar por cima dos outros para obter sucesso. Um sucesso e reconhecimento que, por muito tempo, lhe foi negado, pois ele não parecia do tipo merecedor.

Ou seja, além da trama de futebol, comédia e drama. Ted Lasso fala sobre pessoas. Sobre enxergar as pessoas, sobre acreditar nas pessoas. Parece uma série ingênua e até mesmo utópica, mas ela toca em pontos importantes que, através de seus questionamentos, nos possibilita sermos pessoas melhores – se permitirmos. Gosto de como a série explora suas narrativas sem se colocar no lugar de perfeição, todos os personagens possuem camadas e complexidades, suas questões e seus preconceitos, e tudo isso se desenvolve muito bem, parecendo uma novela da vida real onde mesmo quando o final não é feliz, é possível aprender algo e absorver algo – afinal, eu até já disse isso aqui, nem todo final não-feliz é essencialmente triste.

Parafraseando o filme Cinderella: tenha coragem e seja gentil. Ainda que não te enxerguem com humildade, você é responsável pelo que você faz e só.

Nota: 10/10


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Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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