Desculpe o transtorno, mas concordamos que o afeto é mesmo revolucionário, né?


(Foto: Divulgação/Netflix)

Quando se fala em representatividade, muitas pessoas associam logo à militância ou a coisas mais características como protagonismo e a oportunidade de debater especificidades em ambientes onde, até então, isso não era feito. De fato, representatividade está relacionada a isso, mas também e não somente.

Na minha cabeça, quando penso em representatividade, penso em naturalizar as coisas, principalmente aquelas que parecem mais banais. Para quem viveu a vida inteira se vendo nas obras, é fácil não entender a importância da sutileza, mas quando você faz parte de um grupo invisibilizado, a coisa muda ao se ver nas produções.

Tudo isso para dizer que Heartstopper é uma das melhores produções já feitas nos últimos anos, porque aposta no simples, no comum, mas com um dos elencos mais diversos da Netflix, quiçá de outras obras. No elenco, temos diversidade sexual, de raça, de corpos e de gênero, tudo com muito equilíbrio e, o mais importante, muito natural.

Maratonei a série no último final de semana, porque queria muito trazer ela na Desculpe o Transtorno de hoje – sinta-se presenteada, Ká. Mas, há semanas que me ~enchem o saco para assistir e, mesmo que eu já estivesse com ela no gatilho para ver, acho compreensível a insistência. Perdoados os envolvidos, seguimos.

De todas as coisas que eu gostei em Heartstopper, para além da diversidade e representatividade já mencionada, acho que o que mais me conquistou foi a construção das relações. Das amizades, dos romances, no ambiente familiar e também na confiança parental. Tudo é trazido à tela com muita leveza e naturalidade, de forma que uns vão se identificar e outros vão aprender um ideal saudável para buscar, fugindo dos abusos e dos espaços que não lhe cabem.

Já no primeiro episódio, a sensação que ficou para mim ao subir os créditos foi a saudade de me apaixonar, de sentir esse frio na barriga e toda a conquista e flerte que permeia esse momento. Dentro de uma realidade ora diferente, ora muito parecida, consegui sentir as expectativas crescentes de Charlie Spring (Joe Locke) em mim mesma e foi inevitável não lembrar de como as coisas eram na idade similar ao do protagonista.

Ainda no dia a dia de Charlie, é impossível não se cativar com a amizade que ele tem com Isaac (Tobie Donovan), Tao (William Gao) e Elle (Yasmin Finney). O quarteto possui personalidades distintas, mas acabam se complementando de um jeito muito especial e, mesmo com as diferenças, eles priorizam a relação que estão construindo, agindo com honestidade e muito diálogo.

(Foto: Divulgação/Netflix)
 
É justamente nesse rol de amizades e paquera que surge Nick Nelson (Kit Connor) na história, bem como Tara Jones (Corinna Brown) e Darcy (Kizzy Edgell). O primeiro é o par romântico do nosso protagonista, mas acima de tudo ele é aquela ponta de representatividade para quem cresceu com uma ideia pré-concebida de si mesmo e, em dado momento do percurso, entendeu que talvez nem tudo seja tão determinado e determinista como parece. Há espaço para o meio-termo e tudo bem. Com ele acompanhamos esse processo de descoberta, de aceitação, de se entender antes de querer estar com o outro e, por fim, de se permitir ser e viver o que se é.

Já com a dupla, Tara e Darcy, somos preenchidos com o amor entre duas meninas que, ao contrário de Nick, já compreendem bem quem são e do que gostam. E é com elas também que vemos como pertencer a um grupo, nessa fase da vida, é tão importante. As duas são as primeiras, e únicas, amigas de Elle na nova escola. Elas se abrem para a novata e são abraçadas de volta nessa relação que também se baseia na conversa e na confiança, acima de tudo. Ah, e de quebra, elas se unem aos demais personagens mencionados, formando aquele dream team que todo mundo queria ter encontrado no ensino médio.

Mas, todo mundo teve ao menos um amigo para contar nessa fase da adolescência e de descobertas, né? Ainda que não fosse alguém da sua escola ou seu vizinho, sei lá. Por isso, acho que de todas as relações mostradas em Heartstopper, a que toca mais na maioria das pessoas, para além do romance, são as relações familiares.

Na casa de Charlie, o ambiente é de acolhimento, respeito e cuidado. Sua irmã, Tori (Jenny Walser), é alguém que o escuta, que abraça suas dores e também dá conselhos, do jeitinho dela, mas muito precisos na maioria das vezes. Enquanto seu pai também se coloca como uma figura protetora, que pretende blindar o jovem dos sofrimentos que os outros possam lhe causar.

Esse mesmo ar de espaço seguro encontramos na casa de Nick, com sua mãe Sarah, interpretada por Olivia Colman. Uma das melhores cenas da série chega quase ao fim dela e é justamente na conversa de Nick e Sarah. A mãe, após o filho assumir a bissexualidade, fala algo como “me desculpe se fiz parecer que você não podia se abrir comigo” e é um abraço quentinho para o telespectador.

Ainda que essa não tenha sido a sua realidade, por exemplo, aquela pequena cena te transporta para um outro lugar e, mesmo que ficcional, aquilo vai te acolher de alguma forma. Esse é o maior ganho da série. Essa possibilidade é, com certeza, um dos pontos-chaves para o “hype” envolvido na produção.

(Foto: Divulgação/Netflix)

Heartstopper é uma série muito satisfatória por conta de suas sutilezas. Estamos cansados de ver produções LGBTQIA+ por aí que retratam as dores, os preconceitos e os sofrimentos de toda essa população. Não que essas obras não sejam necessárias, mas resumir toda uma existência a essa condição de martírio é doloroso. Ou seja, é preciso que as produtoras ousem mais em mostrar finais felizes, famílias acolhedoras e amigos que enfrentam as dificuldades juntos para dizer que nem tudo precisa ser desgraça.

Se o mundo precisa mudar, os bons exemplos precisam partir de algum lugar. Das boas histórias, das boas vivências (mesmo quando elas são raras), para inspirar as demais pessoas e acolher quem não teve/tem essa mesma realidade. Para acalentar o coração, para dar visibilidade, para representar e também mostrar um outro lado da moeda. Não há só dor e sofrimento por aí.

Inclusive, a série acerta demais ao também mostrar cenas de preconceito e os desafios que, eventualmente, você enquanto pessoa queer/LGBTQIA+ vai passar. Ninguém está querendo dizer que são só flores e corações, mas também não são só espinhos. Como qualquer coisa na vida de qualquer pessoa. E, dada as devidas proporções de cada vivência, passar pelo ônus e o bônus das coisas é a realidade.

No fim das contas, Heartstopper é aquela série sobre a minha coisa preferida e que já falei em vários outros textos aqui: rede de apoio. Não somos nada sozinhos e todos os nossos atos e palavras refletem em algo na vida do outro. Sei que não podemos nos responsabilizar por como a outra pessoa vai absorver as coisas, mas somos responsáveis por como isso vai até ela. Lembra do papo da semana passada sobre Ted Lasso e a gentileza às vezes ser vista como arrogância? Você não tem culpa do outro interpretar isso de forma errada, mas você só fica com a consciência tranquila se tiver certeza que foi gentil, de fato.

Que a gente possa acolher mais os sentimentos e as vivências alheias, que possamos respeitar o processo dos outros, que às vezes nem temos noção do que ele está passando, e que a gente nunca perca a empatia de olhar para as pessoas ao nosso redor com compaixão. Ah, e que as nossas relações, qualquer uma delas, nunca se percam do caminho da honestidade, confiança e diálogo.

Não precisamos abraçar o mundo, mas, no fundo, a gente sabe quem está ao nosso lado e está precisando disso. E aí, bora distribuir uns abraços quentinhos essa semana?

“Essa aqui vem do fundo do meu coração,
Do mais profundo canto do meu interior,
Pro mundo em decomposição,
Escrevo como quem manda cartas de amor”


(Update para Ká em 14 de maio: feliz aniversário, amiga! Tá aqui uma DOT em forma de cartinha de amor sobre Heartstopper para te dizer obrigada por me acolher, ser meu safe space e permitir que isso seja uma troca mútua. Sua amizade é um presente! Amo você!)


Nota: 10/10
Onde assistir? Netflix


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Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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