EM CARTAZ: Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Foto: Divulgação/Marvel Studios

*Atenção: não revelarei todos os spoilers aqui, mas boa parte deles. Cuidado.*

A expectativa é mãe da frustração. Mas, neste caso, eu sou órfão.

E por falar em mãe (hoje comemoramos o dia delas), o enredo aqui gira todo em torno desse sentimento de maternidade e todos os outros sentimentos que a acompanham (ainda que, aqui, apareçam com representações desproporcionais. Porque, afinal, é uma LOUCURA de ficção e fantasia).

Você, de um jeito ou de outro, foi com alguma expectativa assistir Multiverso da Loucura. Era inevitável, porque era o que a Marvel queria. A loucura do multiverso permite toda e qualquer coisa e, portanto, "joga pra galera".

No meu caso, em específico, exímio curioso que não consegue resistir a um suposto spoiler, fiz questão de me banhar, há meses, de tudo que via disponível. Achei que, como aconteceu com Homem-Aranha: Sem Volta Pra Casa, isso afetaria minha experiência. Eu só não contava com um diferencial: Sam Raimi.

Esse filme, diferente do Homem-Aranha 3, tem direção e assinatura, como aconteceu com o Eternos de Cloe Zhao (e, talvez por isso, tenham sido aceitos de forma mista, quebrando a fórmula lógica). E fica claro que ele é tanto um filme da Marvel quanto é do Sam Raimi, com ônus e bônus que isso possa trazer. Raimi acertou até nas cenas de ação, que tanto deixavam a desejar nos seus "Homem-Aranha" de duas décadas atrás. E o que pode parecer um roteiro simplista (e com razão, uma vez que o elemento de busca do herói por todo o filme, o "Livro de Vishanti", some tão rápido que é preciso prestar atenção e se perguntar: "peraí, aconteceu isso mesmo?") dentro das possibilidades encaminhadas e regravações necessitadas para adaptação do que estava em percurso, tem extraído todo suco de possibilidades nas mãos do diretor. Não é o fan-service pelo fan-service. Mas, discordo quando vejo por aí que seja um filme de terror. Nem de longe. É um filme de aventura com elementos de terror, diga-se de passagem, bem utilizados.

Discordo também quando leio que é um filme curto ou apressado. Penso que, na verdade, seja objetivo. Sim, saí com a sensação de filme de passagem, nada grandiosamente resolutivo ou de grandes implicâncias, mas ele não perde tempo. Pelo contrário, ele parece um filme totalmente preocupado em NÃO perder tempo, tendo em vista o que acontece, por exemplo, com a surpresa dos Illuminati, que igualmente de forma surpreendente desaparecem da tela ao preço de muito sangue.

Sangue esse que escorre das mãos maternas da Wanda (Elizabeth Olsen) que conhecemos em Wandavision, ou não. Ou não porque me incomoda o fato de que uma personagem que suspostamente tenha entendido seus erros volte a cometê-los, ainda que possa entender-se, afinal, é uma mãe, como falei no ínicio desse texto.

Me preocupa, aliás, como os fãs têm recebido de forma cada vez menos racional algumas situações, tendo em vista que o cinema gritava entre uma crueldade ou outra de uma personagem que tentava se comparar ao Doutor Estranho em atitudes questionáveis. É tão lógico quanto é fácil tomar essa resolução: o que Strange fez, ele fez pelo coletivo. Wanda não, ela estava recorrendo ao erro pelo individualismo, o egoísmo trazido pelo sentimento de perda e luto quando não trabalhados da melhor forma interiormente e socialmente. Mas é a velha busca de denotar as coisas entre bem e mal, preto e branco, como se os personagens não pudessem errar e acertar, ainda que em medidas desproporcionais... serem, ante preto ou branco, cinzas.

E é essa a sensação que Multiverso da Loucura passa: de cinza, ainda que muito colorido. Não há felicidade contumaz, ou tristeza que seja. Há espaço aqui para a America Chavez de Xochitl Gomez esbanjar carisma (à propósito, funciona muito bem a relação "Mestre"-Aprendiz entre o Estranho e a personagem, assim como com Homem-Aranha); há espaço para nutrir o respeito e afeição pelo Wong, há espaço para lidar com as diversas relações da Christine (Rachel McAdams) e Stephen através do multiverso. No Multiverso da Loucura de duas horas de Sam Raimi, há espaço pra muita coisa, menos pro telespectador perder tempo pensando enquanto assiste.

Foi essa a sensação que tive: que, durante pouco mais de duas horas, eu apenas digeria tudo emocionalmente, e que tão somente no outro dia seria capaz de tentar digerir estas nuances técnicas e racionais do que havia visto saltar aos olhos.

Não espere um filme que explique o multiverso. Abra seu terceiro olho e veja um filme que apenas expande suas possibilidades e apresenta, de forma majestosa, porque o Doutor Estranho é agora o pilar do Multiverso Cinematográfico da Marvel, com a atuação quase que perfeita de Benedict Cumberbatch.

É uma surra de quadrinhos na tela do cinema. Aqui, até a tosquice é interessante, como na cena da luta com magia e música. Juro que tento deixar o fanboyzismo de lado, mas aqui é impossível. Nem lobotomia resolveria. Afinal, por que se adequar ao normal, quando a loucura parece tão mais interessante?


Nota: 10/10 (em todos os universos possíveis)
Matheus Couto
Matheus Couto

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