RESENHA LITERÁRIO: Heartstopper

(Foto: Adan Cavalcante)


Adaptações sempre são um campo obscuro de se adentrar. Nem sempre elas vão seguir todos os requisitos para fazer a fanbase feliz e, ainda assim, cativar novos. Na minha carreira de leitor e fã de cinema, poucos conseguiram trazer toda a essência do livro para as telonas, principalmente quando se trata de um produto mais realista. 

Heartstopper, antes de virar série, é uma HQ escrita e desenhada por Alice Oseman. A história sobre o relacionamento de Charlie Spring e Nick Nelson é uma das mais bonitas histórias de amor dos últimos anos. Aqui no Clubinho, metade dele foi fisgado por essa história e ficamos obcecados. 

Quando logo que ouvi falar na obra, achei bem interessante, mas comecei a postergar – e tinha colocado como meta ler antes de assistir. Não saiu como eu tinha planejado e acabei devorando a série, e depois corri para ler as HQS. Simplesmente não sabia que podia me apaixonar mais ainda por Heartstopper, mas, conhecer toda a história me fez amar mais ainda o trabalho da Oseman.

A primeira coisa que você precisa saber antes de tudo é que a adaptação é quase 100% idêntica a obra literária. Tirando uma mudança ou outra, que serviu para crescer mais ainda a série da Netflix, vamos acompanhando o Charlie se livrando do relacionamento tóxico com o Ben, conhecendo o Nick e se apaixonando por ele. Do outro lado, temos o Nick conhecendo melhor o Charlie e brotando um sentimento que ele não sabia que existia dentro dele.

Os outros personagens que surgem na narrativa e formam o squad do Charlie e do Nick, são o Tao, Elle, Tara, Darcy e Aled, sim, não temos Isaac aqui. O personagem dos livros foi substituído aqui, pois Alice achaou que seria prudente trazer a bandeira arromântica para seu trabalho. Além disso, o personagem Aled é protagonista de outro trabalho da escritora, Rádio Silêncio, de 2016, e caso ele tenha uma adaptação futura, ela não queria confundir as duas histórias.

À medida que Nick Nelson vai se conhecendo melhor, ele passa pelas dúvidas, a crise e a aceitação, indo de encontro ao que seu coração manda, de forma muito linda e saudável. O apoio que o Charlie passa pra ele, e como as coisas vão se desenrolando é de uma doçura única. Você remete aos amores de adolescência, aos que conseguiram se realizar e os que ficaram guardados apenas no sentimento.

Como um garoto gay, eu realmente senti uma grande ligação com essa história, sendo acostumado a 90% das histórias sendo de cunho extremamente pesado, onde a dor era o maior foco. Eu fui uma das pessoas sortudas no mundo, onde tive aceitação no meu núcleo e apoio geral. Ainda é muito difícil isso ocorrer nas famílias, mas mesmo assim dá uma esquentada no coração ver isso em telas.

O relacionamento dos dois é bem realista também, inclusive certas citações que o Nick Nelson fala pro Charlie me remeteram a um relacionamento adolescente e todas as dificuldades de lidar com um sentimento naquela idade e ainda ser uma pessoa LGBTQIA+ no meio. E com essas sutilezas com pitadas de conto de fadas, que pode ser real, Alice Oseman trouxe uma das histórias mais lindas dos últimos tempos.

Com Dois Garotos, Um Encontro, de 2018 e Minha Pessoa Favorita, de 2019, é formado o primeiro ano da série na Netflix. Nos outros dois volumes as coisas vão ficando ainda mais sérias pro casal, com o relacionamento de ambos saindo da bolha de amigos, ultrapassando a família e colegas da escola. O lado obscuro também é tratado, como os problemas psicológicos de Charlie e a toxicidade familiar.

Ao tratar das condições psicológicas e tudo que o leva a quebrar, a Alice entra em um tema delicado, mas que muitos jovens vão se identificar. Durante meus 15/16 anos, eu passei por transtornos parecidos com os que o Charlie apresenta na trama e tais questões nos permeiam durante nossa vida, fazendo com que o acompanhamento e tratamento seja sempre necessário. Também chega à história o detestável irmão mais velho de Nick Nelson, um garoto arrogante e insuportável. Com piadinhas e um modo invasivo na vida do irmão, ele é um contraponto da Tori, a irmã que busca sempre apoiar Charlie. 

Aliás, um dos momentos mais legais é quando ocorre a viagem da turma para Paris. Tudo basicamente acontece nessa viagem e temos o desenvolvimento de um dos casais mais esperados, além da introdução de novos personagens. Nessa viagem, o tópico primeira vez é mencionado de forma bem delicada, novamente a autora consegue traçar um panorama da construção e medos desse momento na vida de todo adolescente – que, por sinal, todos estão com os hormônios à flor da pele.

Os quatro volumes de Heartstopper já foram lançados no Brasil e o quinto está em processo de criação pela autora. A série já teve sua renovação garantida para 2 temporadas, ou seja, vamos ver muito dessas histórias adaptadas.


Nota: 10/10
Adan Cavalcante
Adan Cavalcante

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