Desculpe o transtorno, mas às vezes o meio-termo é a verdadeira subversão




(Foto: Divulgação/Prime Video)

Já faz algum tempo que eu comento nos bastidores do Clubinho que eu queria escrever uma coluna sobre Capitão Fantástico, mas até hoje não tinha conseguido. Gosto da ideia de falar sobre esse filme, porque ele me causa algumas sensações e muitas reflexões acerca da vida, de maneira geral.

Para quem ainda não conhece, Capitão Fantástico é um longa-metragem dirigido por Matt Ross, lançado no Brasil em 2016, e disponível em vários streamings, como Netflix, Prime Video e Telecine. A história acompanha uma família que, apesar de ter nascido no berço do capitalismo, decide romper com esse estilo de vida e passam a viver no meio da floresta do estado de Washington, distante da civilização, com uma rotina atípica e ideais anticapitalistas. Porém, esse modo de viver é abalado quando um acontecimento faz com que eles precisem retornar à cidade.

A inquietude que o filme desperta começa já nos primeiros minutos, diante desse estilo de vida no meio da floresta, com crianças estudando filosofia e com conversas entre pais e filhos que não possuem tabu algum. Rituais de passagem, caça e outras aventuras mais “rústicas” são incentivadas – e corriqueiras.

A família é composta pelos pais, Ben Cash (Viggo Mortensen) e Leslie (Trin Miller), e seus seis filhos: Bo (George MacKay), Rellian (Nicholas Hamilton), Nai (Charlie Shotwell), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso) e Zaja (Shree Crooks). No elenco ainda temos nomes como Kathryn Hahn, que interpreta Harper, irmã de Leslie, entre outros.

Dentro da vida alternativa que a família Cash vivia, Rellian sempre se mostrou subversivo “à subversão”, questionando a forma como viviam e desejando coisas como celebrar o Natal, usar camisa do tipo polo e comer fast-food. Quando retornam à civilização, o estilo de vida proposto por Ben é ainda mais questionado e assuntos como saúde mental, universidade e demais “coisas da vida normal” são pautadas como temas negligenciados pelo pai.

Mas, talvez a melhor coisa de Capitão Fantástico seja apontar que nenhum dos extremos é bem sucedido e que, quando possível, o equilíbrio sempre será a melhor resposta. Considerando os fatos que acontecem no meio do filme, e dessa vez vou poupá-los dos spoilers, os filhos de Ben têm a oportunidade de viverem uma vida imersa no capitalismo e, ainda assim, optam por voltar para o que tinham com o pai.

Esse, por sua vez, já entendeu que uma vida completamente distante da “civilização” e das “coisas” da civilização não funciona, porque, de fato, muitas coisas ficam negligenciadas. É diante desse ponto de vista que Ben encontra um meio-termo, uma vida mais monótona em uma fazenda, que ainda assim possibilita hábitos sociais às crianças, como frequentar a escola ao invés do homeschooling não regulamentado.

Apesar do filme apontar que o estilo de vida de Ben e Leslie não estava de todo correto, fica bem claro que também não estava de todo errado. As conversas sem tabus e o diálogo franco com as crianças é um passo muito à frente do que a nossa “civilização” está acostumada, e é fundamental para o pai encontrar esse meio termo do final do filme, porque foi possível ouvir e conversar. Os estudos filosóficos e o incentivo à análise crítica formou uma consciência de classe e senso crítico dessas crianças também de um jeito que eles estão muitos passos à frente dos demais, muito mais conscientes e sensatas para tomar decisões – e assim o fazem.

Capitão Fantástico é mais do que uma crítica ao capitalismo e à forma como vivemos em sociedade, é uma representação de uma solução possível e viável ainda que individualmente, mas que suas consequências formariam uma sociedade muito melhor e mais evoluída, em hábitos e pensamentos.

Não sei como vocês vão se sentir exatamente ao subir dos créditos na tela, mas em mim sempre vem aquela sensação de querer viver uma vida mais minimalista ou, pelo menos, prezando por coisas que vão me agregar mais (principalmente de forma intelectual ou emocional, incluindo mais experiências e momentos e menos coisas materiais), que vão fazer com que eu seja, ainda que minimamente, uma pessoa melhor para os meus e o lugar onde eu vivo. E, mesmo quando não desperta nada disso, fica o quentinho no coração de reconhecer que, às vezes, é do meio-termo que precisamos, de estar perto das pessoas que amamos e que, no fim das contas, é isso que verdadeiramente importa: a acolhida – de quem se é, dos medos que se tem, dos sonhos que se sonha, da vida que se leva.

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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