Desculpe o transtorno, mas só quem tem medo do inferno é quem não vive nele


(Foto: Reprodução/Paramount)

Na maioria das casas, a gente cresce acreditando em um ideal de inferno que tem coisas como cheiro de enxofre e chamas por todos os lados, com uma figura de tridentes, chifres e rabo comprido nos esperando para nos julgar frente ao seu suposto trono. Mas, quando se é mulher, o cenário de inferno é diferente e, mais do que nunca, concreto. Hoje – e todos os dias – o inferno é aqui.

“Fecha as pernas, senta que nem moça, não usa roupa curta, moça direita não usa batom ou esmalte vermelho, não fique sozinha com ele, não saia sozinha, não beba, cuidado com o copo, não use decote, não dance desse jeito, não, não não…” Toda uma sociedade para apontar o dedo para uma mulher desde cedo, ensinando-a como se portar para não ultrapassar o limite do controle de um homem.

Tanta gente para “ensinar” uma mulher a “ser mulher” e ninguém para ensinar um homem a como não ser um homem. Pelo menos, não o homem que crescemos aprendendo que existe. Ninguém para dizer a eles: “não olhe para ela assim, não passe a mão, o corpo é dela, não coloque nada na bebida dela, respeite ela, não assobie, não segure desse jeito, não passe dos limites, entenda que não é não”.

Com os casos mais recentes que ganharam a mídia, fica impossível não pensar que sim, já vivemos no inferno e o inferno não é um lugar, é um gênero. Ser mulher é maldição, porque a sociedade não está preparada para a nossa grandeza e autonomia, parece que querer ser gente é pedir demais.

E sempre que eu penso nesse assunto e em todas as coisas que vimos ganhar sites e telejornais nas últimas semanas, eu lembro porque não consigo assistir The Handmaid 's Tale, por exemplo. Ou porque um dos filmes mais difíceis de terminar, em toda a minha vida, foi Um Olhar do Paraíso. Ou como Bela Vingança, que apesar de ser um final satisfatório do ponto de vista da vingança, de fato, ainda me incomoda porque mesmo “vencendo”, ela perdeu. Ou sobre todas as vezes em que traumas me assombraram, causando gatilhos que por vezes o cérebro escolheu bloquear.

Hoje essa coluna não tem a pretensão de fazer sentido e nem de indicar nenhum filme ou série, é apenas um desabafo sobre como é difícil ter que aguentar o mundo inteiro lhe anulando pelo simples fato de você ser mulher – ou pessoa com útero, de maneira geral, quando se trata de direitos reprodutivos.

É insustentável, não dá mais.

Todos os dias tentam roubar mais da nossa dignidade, do nosso corpo, da nossa alma e de quem nós somos e, às vezes, parece que estão conseguindo. O que me conforta é ver que juntas somos mais fortes, senão perante eles, perante nós mesmas. Que a gente possa lembrar de nunca esquecer da nossa própria força quando estamos do mesmo lado, quando estamos de mãos dadas, quando estamos nos deixando seguras dentro do nosso ciclo, quando estamos juntas. Juntas mesmo.

E mesmo que nem toda mulher esteja do nosso lado, que a gente possa encontrar as que vão estar. São muitas. Somos muitas. Não é e nem vai ser fácil, mas eu estou aqui – tomara que você também.

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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