30 anos sem Marsha P. Johnson

Foto: (Divulgação/Netflix)

Em 6 de julho de 1992, a ativista negra LGBTQIAP+, Marsha P. Johnson nos deixava. A notícia chocou não só os EUA, mas também o mundo, que perdia um dos nomes mais importantes da história. Mas, apesar da morte repentina, e inconclusiva até hoje, Marsha viveu 46 anos dedicados à luta pelos direitos LGBTQIAP+.

Nascida em agosto de 1945, na cidade de New Jersey (EUA), desde cedo se identificava como mulher e foi na infância que começou a usar vestidos para brincar na rua com as crianças da vizinhança, porém teve que se "resguardar" quando começou a sofrer assédios dos garotos do bairro. Filha de um operário e uma empregada doméstica, Marsha também sofreu preconceito vindo dos pais e por conta disso saiu de casa logo após se formar no colégio.

Com 17 anos, U$15 no bolso e uma mala de roupas, ela se mudou para Nova Iorque sozinha e viveu na pele as dificuldades de uma pessoa trans ao tentar ingressar no mercado de trabalho. Como na época os direitos da comunidade LGBTQIAP+ eram extremamente limitados, Marsha não viu outra alternativa de sobrevivência a não ser a prostituição.

Apesar do dinheiro fácil, a vida de prostituta era carregada de perigos, por conta disso Marsha foi presa diversas vezes, chegou a ser baleada e desenvolveu transtornos relacionados à saúde mental. Somado a isso, Johnson passou a maior parte da vida sem ter um teto para chamar de seu e teve que achar descanso na rua, quartos de hotel, restaurantes e casas de amigos. Foi nessa época que conheceu Sylvia Rivera, uma menina trans de apenas 11 anos que tinha acabado de chegar de Porto Rico em busca do sonho americano. Sylvia considerava Marsha como uma mãe que a acolheu e ensinou como sobreviver nas ruas de Nova Iorque.

Revolução Stonewall

Stonewall Inn era um bar bastante frequentado por integrantes LGBTQIAP+ e um dos poucos estabelecimentos a receber a comunidade o que o tornava de certa forma um lugar seguro para as expressões de gênero e afins apesar de sofrer invasões policiais com uma certa frequência, mas nada que os frequentadores já não tivessem acostumados.

Tudo mudou em 28 de junho de 1969, o lugar foi invadido pela polícia sem nenhum aviso, porém dessa vez houve reação. À frente da briga estava Marsha P. Jonhson que, segundo relatos, atirou o primeiro copo de vidro contra os policiais. Este momento foi um divisor de águas na luta pelos direitos LGBTQIAP+, principalmente por ter levado pra rua, com direito a megafones e cartazes de protesto, uma luta que começou em um lugar fechado com vozes abafadas.

Marsha P. Johnson (à esq.) e Sylvia Rivera (à dir.) na Parada do Orgulho Gay de 1973 (Foto: Reprodução)

Exatamente um ano depois, em 28 de junho de 1970, aconteceram as primeiras marchas em grandes cidades dos Estados Unidos levando milhares de pessoas às ruas em busca de direitos para a comunidade queer. Contudo, apesar de toda trajetória revolucionária ter começado também pela coragem de Marsha, pouco tempo depois as pessoas trans se depararam com o preconceito dentro da própria comunidade. Alguns diziam que as pessoas transgênere, travestis, etc, “manchavam” a imagem dos LGBT’s no geral e, mesmo sendo a linha de frente no início da luta, as pessoas trans continuavam sendo vistas pelos estereótipos que as rodeavam.

Ninguém queria ter sua imagem associada a “um traveco” e isso levou Sylvia a desabafar em plena Parada do Orgulho Gay de 1973, quando, com a voz embargada, gritou em alto e bom som: “Agora vocês podem ir a bares graças ao que as drag queens fizeram por vocês. Eu já apanhei, já quebraram o meu nariz, fui jogada na cadeia, perdi meu emprego e a minha casa por conta da liberação gay e vocês vocês me tratam assim?”


Mesmo com a causa LGBTQIAP+ ganhando visibilidade e crescendo cada vez mais, Marsha ainda se via frustrada com o protagonismo de homens gays e mulheres lésbicas na causa, e se perguntava qual era o papel das pessoas trans nessa luta, principalmente porque foram elas quem deram o ponta pé inicial no movimento LGBTQIAP+ que vemos até os dias de hoje. Ao se depararem com esse muro criado por aqueles que insistiam em negar a importância das travestis no movimento, Marsha e Sylvia Rivera criaram a S.T.A.R., Street Transvestite Action Revolutionaries (Revolucionários da Ação de Travestis nas Ruas, em tradução livre), para oferecer assistência e até moradia às pessoas trans desabrigadas. Ambas se prostituiam para pagar o aluguel da sede da organização, além de garantir alimentação e vestimentas para os abrigados pela S.T.A.R.

Legado

Marsha sempre foi descrita como uma pessoa doce, amável, gentil e caridosa, do tipo que dava a roupa do corpo se preciso fosse. Chegou a ser presa mais de 100 vezes, contraiu AIDS nos anos 1990, mas buscava deixar o sorriso no rosto e levar a vida com alegria.


(Foto: Reprodução)

Porém, o lado feroz de Marsha acabou atraindo também o ódio daqueles que não entendiam sua luta. Em 06 de julho de 1992, ou seja, pouco dias depois da Parada do Orgulho Gay daquele ano, o corpo de Johnson foi encontrado no Rio Hudson, em Nova Iorque, mas investigação foi logo encerrada e a causa da morte foi divulgada como suicídio. Contudo, muitos amigos da ativista discordavam do resultado da autópsia e acreditavam que na verdade ela teria sido vítima de um ataque ou crime de ódio.

O caso até chegou a ser reaberto por volta de 2012, mas continuou inconclusivo por falta de provas. Em 2017, a Netflix lançou um documentário intitulado A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson, que acompanha a ativista Victoria Cruz investigando por conta própria o caso de Marsha enquanto enfrenta uma onda de violência contra mulheres trans nos EUA.

No documentário é possível ver o quanto Johnson era e ainda é amada. E isso só evidencia o quanto ela teve um fim triste e doloroso, que levou centenas de pessoas ao velório de um dos maiores nomes da causa LGBTQIAP+. Foram 46 anos de uma vida dedicada a dar voz àqueles que a sociedade invisibiliza e violenta até hoje. Marsha foi muito mais que uma ativista militante, foi uma entusiasta que celebrava a vida, a existência e resistência.

Mas a vida de Marsha P. Johnson não é só um pedaço do passado. Marsha vive dentro de todos que, assim como ela, enfrentam batalhas diárias apenas pelo direito de existir. Em todos esses anos sem ela houveram, sim, muitos avanços, mas não o suficiente. Pessoas ainda são presas, violentadas e mortas por vestirem o que vestem, por amarem quem amam, por serem quem são. É uma luta que não está nem perto de acabar, mas seguiremos resistindo todos os dias e fazendo jus às lições e ao legado que Marsha nos deixou.

(Foto: Reprodução)
Kássia Paz
Kássia Paz

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