Desculpe o transtorno, mas, às vezes, falar é o melhor remédio para se curar


(Foto: Divulgação/Netflix)

Quem ouviu o último episódio do nosso podcast, sabe que ao mesmo tempo em que eu estive super empolgada com Stranger Things, eu também não curti tanto o final dela. Claro que a queda brusca de hype não interfere na minha relação com a série, mas foi inevitável não me sentir levemente incomodada e desapontada com os caminhos que a produção tomou em seus dois últimos episódios. Mas, hoje, apesar do tema desta coluna ser Stranger Things, eu vim falar de coisa boa. Ou melhor, de coisa bem feita.

Eu admiro produções que buscam narrativas subjetivas para abordar questões pertinentes do nosso contexto atual, seja ele político, social, emocional, enfim. Desse modo, um dos pontos altos da temporada mais recente do sucesso da Netflix foi justamente a maneira em que escolheu tratar assuntos como saúde mental, traumas psicológicos e o luto. O luto, inclusive, que foi um gancho deixado no final da terceira temporada e explorado de forma sensível e crua na temporada atual.

A gente sabe que esse processo de luto é muito pessoal e, na verdade, toda essa questão de saúde mental é muito individual, porque cada um sabe dos seus gatilhos, medos e passado. Mas, a série opta por seguir num caminho que, mesmo com a sua individualização, consegue pegar pela…sim, identificação. E a gente tem o luto de formas distintas aqui, e como um dos mecanismos para tratar a saúde mental, mas não o único. Dissertarei sobre, ok?

Max (Sadie Sink) perdeu seu irmão Billy (Dacre Montgomery) na temporada passada e estava “colhendo os frutos” dessa dor. A forma como ela escolheu lidar foi se isolando, se fechando dentro do seu mundinho e, de certa forma, fugindo do fato de ter que lidar com esse trauma – como quando a psicóloga vai atrás dela.

Na mesma trama, do outro lado do país, temos Joyce (Winona Ryder) e Eleven – agora Jane – (Millie Bobby Brown) lidando com a perda de Hopper (David Harbour), que até então tinha sido dado como morto na explosão do laboratório russo, também na temporada passada. Eleven, além de perder o pai, também rompeu com a vida que conhecia quando teve que se mudar para a Califórnia e começar numa escola nova, socializar com novas pessoas e passar por aquele processo de aceitação social que, quando se é adolescente, é ainda pior.

Nessa questão da mudança, a El está em estado de negação, mentindo para o namorado Mike (Finn Wolfhard) sobre uma vida aparentemente perfeita que está construindo na nova cidade. Coisa que, logo no primeiro episódio vemos que não é bem assim.

Ao longo da trama, outros traumas vão se apresentando, como em relação ao Eddie (Joseph Quinn), que é testemunha da primeira vítima do novo vilão da temporada, o Vecna (Jamie Campbell Bower). E temos acesso também a outros complexos da Eleven e de outras crianças que passaram pelo Laboratório de Hawkins e pelas mãos do Dr. Brenner, da Nancy (Natalia Dyer) com a Barb, enfim, é um acervo de gente traumatizada – bem gente como a gente.

Com a adição do vilão, que busca justamente pessoas com grandes traumas e essa vulnerabilidade emocional para atacar, a minha questão com tudo isso é dizer que foi um grande acerto da produção tratar, mesclando entre o lúdico e o realista, a temática da saúde mental. Da importância de se tratar, de buscar ajuda, de conversar e de se permitir se curar. Não é um caminho fácil, existem recaídas e um milhão de coisas enviesadas no meio desse caminho, mas pelo menos existe o tal do caminho.

Foi reconfortante para mim, enquanto telespectadora e pessoa com transtornos psicológicos (independente de quais), me perceber dentro de uma trama como Stranger – mesmo que isso me fizesse vítima do Vecna, socorro. A série “brinca” com isso de um jeito que você pode até cogitar que é melhor se tratar disso a morrer de forma tão cruel e sofrida nas mãos do vilão, né?

Certeza que isso não reverberou para todo mundo, mas meu jeitinho perturbada de ser ficou atento a isso. Acho que o tema ganhou ainda mais destaque com o luto da Max mesmo, (spoiler!) que foi uma das vítimas do Vecna e fez todo o sucesso com a música Running Up That Hill, da Kate Bush – que tá bem relacionada com a trama Max-Billy, repara na tradução!

“E se ao menos eu pudesse
Fazer um acordo com Deus
Eu o convenceria a trocar nossos lugares (...)”


Pesado, né? E aí, o que Stranger Things te causou nessa última temporada?


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Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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