Desculpe o transtorno, mas é que a vida sempre indicou o meu caminho até aqui, eu só não compreendia


(Foto: Acervo pessoal/Beatriz de Alcântara)

Hoje eu não tenho uma série, um filme ou um livro específico para contextualizar com esta coluna, mas quero propor um papo sincero sobre profissão. Na verdade, sobre a minha profissão e minha curta jornada de alguns anos dentro do Jornalismo.

Quando fui questionada, no primeiro dia de aula da faculdade, sobre o porquê da minha escolha pelo curso, eu tinha uma história muito bonita na ponta da língua. Assisti a uma cobertura da queda do Muro de Berlim, feita pelo Jornal Nacional, e fiquei encantada pela oportunidade de narrar a história para outras pessoas ali, no momento em que a história estava acontecendo. Sempre me pareceu que foi nesse dia que o Jornalismo se abriu para mim como uma possibilidade, porém recentemente descobri que não.

Acho que, no fim das contas, eu sempre estive destinada a isso. Mas, antes de rebobinar essa fita, quero falar um pouco sobre o presente.

Eu sou uma apaixonada pelo Jornalismo, nunca neguei isso, mesmo quando às vezes ele parece decepcionante. Eu tenho um amor genuíno pela profissão, porque, principalmente depois de me inserir no meio, percebo a importância social que tem no “ser jornalista”. É de uma responsabilidade sem tamanho e nem todo mundo está disposto a isso, o que acaba “manchando” a atividade, digamos assim.

Mesmo quando as coisas me entristecem ou mexem comigo, a ideia de poder atuar conversando com as pessoas e fazendo com que estas sejam informadas da maneira mais correta e verdadeira possível me parece uma boa missão de vida. E não precisa ser só com assuntos sérios ou causas sociais. O próprio Clubinho é um bom exemplo do quanto eu amo as possibilidades do Jornalismo. Ser espaço de debate e ainda assim ser leve, ser divertido, usar a cultura como ferramenta informativa, democratizar as coisas. Tudo isso é possível por conta da Comunicação, e de uma comunicação responsável.

Mas, por quê eu tô falando tudo isso? Porquê, às vezes, eu mesma desanimo com a causa. Parece não ter retorno, parece não ter reconhecimento. É difícil, é exaustivo. A gente tem na presidência um governante que só menospreza a categoria – dentre tantas outras – e, se você é mulher, tudo isso só piora.

E daí eu lembrei que, provavelmente, se existir a tal da predestinação, todos os caminhos me trariam até aqui. Talvez não geograficamente falando, mas sempre profissionalmente. Quem me conhece na vida pessoal há mais tempo, ou até mesmo alguns ouvintes do podcast, sabem que eu tive um histórico de fangirl. Por muito tempo, ali entre meus catorze e quinze anos, eu fui meio “groupie” – tirando a parte sexual da coisa –, acompanhando bandas, indo para porta de hotel, gastando uma nota com meet&greet e tudo mais.

Toda essa experiência exigia uma alta habilidade de investigação, apuração e comunicação. Procurar assessorias ou equipes de produção, descobrir horário de voo, endereços, horários de saída, conversar e convencer as pessoas sobre os encontros, gravar vídeo ou áudio para as amigas, articular como falar sem parecer uma adolescente surtada. Dá para dizer que já não era um nível avançado de prática jornalística?

E eu vou mais além! Anos antes dessa fase mais groupie, eu tinha contas de fã-clubes, participei inclusive de comunidades no Orkut com essa finalidade, repercutia reportagens de jornais, consumia revistas e fazia curadoria de posters, de fotos, de novidades. Com o Instagram e o Twitter, compartilhava notas de postagens, fazia atualizações da vida dos famosos que acompanhava. Em alguns casos, integrei equipe de portais de fãs, fazendo a ponte entre o artista e o fandom, escrevendo notícias para blogs, intermediando os antigos chats do Twitter usando #, já tive blog pessoal, já fui a feiras de beleza como “blogueira” e “imprensa” enfim, o histórico é grande.

Eu não me dei conta do valor de tudo isso até pouco tempo, quando tive uma epifania pensando que era meio inevitável não cair na área da Comunicação. Toda a minha vida foi um grande ensaio para essa formação. Eu era fã da Titi e da MariMoon no Acesso MTV, sabe? Sonhava em entrevistar famosos e tal, como que eu não ia ser jornalista? (Inclusive, estava compartilhando nesse último final de semana todos esses pensamentos com uma amiga de infância que também se formou em Jornalismo e também estava imersa nessa vida de fangirl, mais do que eu até. Oi, Carolis!)

Não foi tão do nada que eu comecei a refletir sobre isso, foi meio que depois de me dar conta de quantas oportunidades eu já ganhei e eu ainda vou ganhar com a profissão. Já entrevistei políticos, músicos, atrizes, ganhei ingresso para cobrir o show de uma das minhas bandas favoritas da vida (esse momento aqui virou uma chavinha, juro!), coisas que só o Jornalismo pode me proporcionar. E eu sinto, quero, sonho e trabalho para que isso aconteça muito mais e com muitos outros nomes que eu amo, para que tenham tantas outras conquistas nesse sentido.

A Bea de 15 anos atrás jamais imaginaria isso, apesar de já estar em contato com esse universo e nem se dar conta. Eu passei muitos anos “perdida” sem saber que caminho profissional seguir, mas sempre que eu tinha alguma certeza, essa certeza estava vinculada à Comunicação. Eu já quis fazer Odontologia e Direito, por exemplo, mas eu repetia isso de modo automático sem entender o que realmente significaria. Eram profissões que eu tinha exemplos próximos e bem-sucedidos, parecia certo, mas não era. Não tinha como ser.

Minha primeira “certeza” foi quando aos 45 do segundo tempo do segundo ano do ensino médio, quando eu decidi que queria fazer Publicidade. Eu gostava de mexer no Photoshop (também uma herança dos tempos de fcs) e não tinha faculdade de Design nas universidades federais e estaduais de Pernambuco, então P&P era minha única possibilidade.

Daí, somente no terceiro ano, quando aconteceu todo aquele rolê que eu contei ali no começo da reportagem sobre a queda do Muro de Berlim etc, esse sentimento se uniu a um comentário de um professor durante a correção de uma prova de Geografia: “você é boa de síntese e escreve muito bem”. Obrigada, Marcondes. Uma frase simples, um elogio bobo, mas que me direcionou para o Jornalismo. Depois do comentário, eu fui pesquisar profissões com as quais eu poderia trabalhar escrevendo e entre dizer aos meus pais que queria ser escritora ou jornalista, a segunda opção pareceu mais sensata. E foi.

(Mas olha que eu ainda tenho o sonho de publicar um livro!)

Com tudo isso quero dizer o quê? Que eu passei muitos anos perdida nessa questão profissional, que é muito cobrada quando estamos na escola, mas que com um pouco de maturidade percebi que sempre estive em contato com o que eu queria, amava e sinto que deveria fazer. Sei que sou realizada profissionalmente hoje, apesar de todos os pesares, porque tenho amor. Eu sou apaixonada pelo que faço e isso implica engolir uma série de situações, passar alguns perrengues e me decepcionar com uma outra porção de coisas, tendo consciência de que o propósito da atividade faz isso tudo valer a pena. E me recompensa de várias maneiras, ainda que nem sempre financeiramente.

E essa coluna de hoje serve também de lembrete para mim mesma do porquê eu escolhi estar aqui hoje. Nem todo mundo tem a mesma “sorte” de, aos 25 anos, ser tão feliz com uma escolha profissional. Ou melhor, ter tanta certeza dela. Mas, eu também me permito saber que, se eu quiser mudar a rota e escolher um outro caminho, também vai ficar tudo bem. Sou muito nova e essa coisa de “predestinação” não deve servir para nos aprisionar em escolhas que, em algum momento, podem deixar de fazer sentido.

Que a gente se permita viver o que é necessário viver, correr atrás dos nossos sonhos, lidar com os altos e baixos da vida, mas também compreender que às vezes “soltar a corda dói menos do que continuar aguentando ela”.

Sou muito feliz com o Jornalismo, com toda bagagem que eu construí involuntariamente para chegar até aqui, e acredito que todo mundo deveria se sentir assim com suas escolhas profissionais (e na vida, de maneira geral, né?). Não seja alguém frustrado porque deixou de seguir um sonho. É meio utópico, pois vivemos em um país desigual e todo mundo precisa pagar as contas, mas se você tiver condições e oportunidades, se jogue naquilo que você ama. Na maioria das vezes, eu te garanto que valerá a pena.

Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

Para saber mais sobre o/a autor/a, acesse a aba "Quem Somos".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilha sua opinião! ♥

Autoria de Clube do Café da Manhã. Tecnologia do Blogger.