Mataram Elena Ferrante. Mas não é como se ela pudesse morrer.



(Gaia Girace e Margherita Mazzucco como Lila e Lenu) - Imagem: Eduardo Castaldo/HBO)

Querido diário que não é diário,


Na última quarta-feira, dia 25 de agosto de 2022, alguém decidiu matar Elena Ferrante. O anúncio de que ela teria morrido saiu em um perfil no Twitter que parecia ser o da editora responsável pela publicação de seus livros. Mas não era.


A verdade é que o “assassinato” foi conduzido pelo jornalista Tommaso Debenedetti, um conterrâneo de Ferrante famoso por “matar” famosos. Ele já foi o responsável por espalhar a notícia da falsa morte de figuras como Pedro Almodóvar e o papa Bento XVI. Debenedetti, que não conseguiu a carreira que desejava dentro do jornalismo cultural, gosta de ser chamado de “campeão italiano da mentira”. E segundo ele mesmo, faz isso como uma forma de “denunciar” e chamar a atenção contra a falta de controle com desinformação e notícias falsas.


Aparentemente, ele foi bem sucedido na sua demonstração já que o jornal britânico The Independent chegou a publicar a “notícia” com o selo de “urgente”. Tudo isso para ter que tirá-la do ar minutos depois.


A reação nas redes sociais foi de confusão já que Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora italiana que nunca mostrou sua verdadeira identidade e as camadas de assessoria e agentes literários que estão entre nós, o público, e ela fazem com que qualquer notícia do tipo seja inusitada e demorada.


Afinal, não existe perfil no Instagram no nome dela que publicará uma imagem toda preta com uma mensagem de luto quando esta finalmente vir a falecer. Sua família também não é conhecida, então não saberemos por pessoas próximas de quando será o funeral. E a ausência de um nome não permitirá que fãs possam visitar seu túmulo em uma espécie de peregrinagem quando tudo acontecer.


Este poderia ser um texto sobre a velocidade na qual notícias falsas viajam na internet ou uma análise das motivações e da estratégia de Tommaso Debenedetti. Mas a verdade é que a faculdade de Jornalismo já suga muito desta autora para que ela venha e fale aqui o que é obrigada a debater todos os dias em sala de aula.


Então trago um questionamento que me parece muito mais interessante:


Como morre um pseudônimo?


A resposta óbvia e simples para essa pergunta parece estar na ponta da língua: ele morre quando o seu dono deixa este plano, vai dessa para melhor, desencarna, dá seu último suspiro. Mas, eu arrisco a dizer que não é tão simples assim. E Elena Ferrante é (ou será) a prova disso.


A autora best-seller ganhou notoriedade com a sua tetralogia napolitana composta pelos livros A Amiga Genial (2011), História do Novo Sobrenome (2012), História de Quem Foge e de Quem Fica (2013) e História da Menina Perdida (2014). Seus outros livros fora desta série também carregam milhões de fãs e já foram traduzidos para mais de 50 países. Em 2018, seu quarteto mais famoso ganhou uma série pela HBO que, felizmente, manteve uma produção e atores italianos (ao contrário do que foi feito com uma outra adaptação de Ferrante, A Filha Perdida (2021), dirigida por Maggie Gyllenhaal).



(Olivia Colman em A Filha Perdida - Imagem: Yannis Drakoulidis/Netflix)

A especulação sobre sua identidade e a falta de respeito para com a sua privacidade são temas recorrentes na mídia italiana. Análises comparativas dos seus livros com os de seus contemporâneos chegaram à conclusão de que Domenico Starnone, autor de Laços (2017),  poderia ser a pessoa por trás do pseudônimo. Mesmo que ela já tenha falado que é uma mulher, nascida em Nápoles e filha de uma costureira, a ideia de que pudesse ser um homem a pessoa por trás de textos tão femininos gerou um desconforto em seus leitores. 


Mais recentemente uma investigação que rastreou pagamentos e contas da editora de Ferrante levou ao nome da tradutora Anita Raja (esposa de Domenico). O tal “trabalho jornalístico” me fez refletir sobre o quão importante é sabermos o rosto por trás de quem escreve nossas obras favoritas.


Na indústria musical, parece ser a norma que um artista deixe pequenas dicas de para quem foi aquela música ou já deixe claro que evento da sua vida inspirou um álbum. O catálogo inteiro de Taylor Swift e o Lemonade (2016) de Beyoncé estão aí para provar isso. Em Hollywood, Encontros e Desencontros (2003) de Sofia Coppola e Ela (2013) de Spike Jonze parecem contar os dois lados do término entre seus diretores.



(Bill Murray e Scarlett Johansson em Encontros e Desencontros - Imagem: Reprodução)

Somos obcecados pelas histórias por trás das obras, por cada motivação que fez seus criadores chegarem onde chegaram. É natural que quando uma autora como Ferrante, que diz ter escolhido a ausência (e não o anonimato), estremece o mundo com seus livros, sejamos impelidos a querer saber a vida de quem parece conhecer a dor de ser mulher tão intimamente.


Os seus livros corroboram para isso. Todos, de alguma maneira, são sobre mulheres de Nápoles e como essa cidade as define e determina. Existe também um retorno ao século XX: essas mulheres ou vivem nele ou conhecem alguém que veio dele e tem um impacto profundo em suas vidas. A intersecção entre problemas de gênero e de classe também é um ponto em comum, junto com a maternidade e a xenofobia que napolitanos sofrem em outras regiões da Itália. 


Tudo isso, ligado ao pouco que Ferrante deixou escapar sobre si mesma, cria sobre ela uma espécie de conexão com as suas personagens. Especialmente com Elena Greco, ou Lenu, que já apareceu por aqui, no artigo sobre mulheres detestáveis. A escolha do nome e o fato de a protagonista da tetralogia napolitana ser uma autora que está contando a história que lemos em um livro torna a experiência ainda mais metalinguística e imersiva.


Seria Elena Greco uma extensão de Elena Ferrante? Seriam suas outras personagens partes diferentes da sua própria história ou de aspectos da sua vida? É hipócrita aquele que leu a obra de Ferrante e diz nunca ter se feito esses questionamentos ao menos uma vez.


A tendência de fazer biografismo enquanto entramos em contato com uma obra é inevitável. Especialmente hoje, com celebridades derramando suas vidas pessoais em seus trabalhos e transformando suas dores em lucro, eventos culturais e trending topics.


Mas são nomes como Ferrante, com a sua “ausência”, que nos lembram do poder de uma boa história. É claro que parte do seu apelo é o de uma autora sem rosto e que o marketing por trás dos seus livros usa isso no culto à imagem e obsessão com a escritora. Estes são lembretes de que até no anonimato existe uma oportunidade capitalista para se fazer dinheiro.


Entretanto, se um dia a pessoa de carne e osso por trás deste pseudônimo vier a deixar o mundo dos vivos, Elena Ferrante continuará viva para sempre. Ela tem o privilégio de não possuir nada no plano terreno que a faça mudar ou envelhecer fisicamente. Até porque não há físico.


Pseudônimos tornam ainda mais real a ideia de que um autor é eterno e de que a obra continuará a viver mesmo após a sua morte. Porque há neles uma poderosa separação que faz com que uma pessoa possa ver seus escritos existirem por si mesmos. Em outras palavras, o poder ideal de que a história deve ser maior do que quem a criou.


É por isso que Tommaso Debenedetti pode até ter tentado nos assustar com a falsa morte de quem quer que seja a pessoa que assine como Elena Ferrante. Mas essa mesma pessoa já garantiu a vida eterna quando decidiu que uma versão dela jamais sucumbirá ao famigerado ciclo da vida.

Rayssa Oliveira
Rayssa Oliveira

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