Desculpe o transtorno, mas normalizamos demais o “tudo bem não estar bem”

(Foto: Divulgação/Multishow)

É oficial, não se fala em outra coisa a não ser no show cancelado do Justin Bieber e no fato do cantor ter priorizado cuidar da saúde mental a concluir uma turnê – além da síndrome de Ramsay Hunt, o astro canadense também lida com problemas relacionados a ansiedade, depressão, abuso de drogas e alcoolismo. Mas, o texto abaixo começou a ser escrito antes disso, então partiu para a Desculpe o Transtorno de hoje!

Por que naturalizamos a entrega a qualquer custo? O não estar bem, mas ter que ser produtivo. O não estar bem, mas ter que fingir que está. Eu sei que a vida adulta consiste nisso também, eu entendo, mas não deveria ter que ser assim.

A nossa sociedade, que visa o lucro acima do bem-estar, naturalizou isso e só seguimos o baile, afinal, as contas não se pagam sozinhas e nesse pensamento vamos cada dia mais nos enforcando nessa corda que nos deram. Mas, esse questionamento em especial surgiu após o episódio de Justin Bieber no Brasil para o Rock in Rio – e que agora se concretizou com os shows que seriam realizados em São Paulo.

Com a história do “vem ou não vem” do artista, que claramente não está bem e faz questão de deixar isso claro, muitas comparações surgiram com outros cantores, nesse caso em específico, que sustentaram apresentações mesmo com a saúde física e/ou mental aos frangalhos. O show de Katy Perry em São Paulo depois do torpedo do ex-marido falando sobre o pedido de divórcio, Taylor Swift doente e cantando, Miley Cyrus “surtando” também por conta do ex-casamento e ainda assim cumprindo agenda, fulano de tal assim ou assado, enfim, entenderam né? E meu ponto é justamente o porquê a gente naturalizou que essas pessoas têm que entregar performances mesmo sem condições para isso.

Afinal, por quê é mais absurdo o Justin cogitar não se apresentar do que ter que subir ao palco e piorar a sua situação?

(Foto: Reprodução/Part of Me Movie)
 
Não estou colocando aqui o mérito do desapontamento dos fãs ou do dinheiro gasto, que sei que é uma "variável importante” nessa equação, considerando que é justamente por conta do dinheiro (a se ganhar ou perder) que essas pessoas se submetem a isso. Contudo, a culpa mais uma vez é nossa, como um todo, pois diariamente falhamos como sociedade.

O filme do Elvis, que assisti na última sexta-feira, demonstrou bem o que o mainstream pode causar, o preço que se paga para estar sempre “bem” diante das câmeras e não desapontar. Assim mesmo vimos com Amy Winehouse, Michael Jackson, Cory Monteith, Chorão e com outros que, por milagre ou qualquer outra força superior, ainda estão vivos, como o caso do próprio Justin, Demi Lovato, Miley e toda essa geração Disney que conhecemos e sabemos do histórico.

Outro grande problema é essa necessidade de “não fracassar”, porque, do ponto de vista lucrativo, desistir e/ou pausar as coisas que não nos fazem bem ou para nos cuidar é um claro sinônimo de fracasso, de falha, de decepção. E ninguém quer isso.

Eu nem gosto do Bieber enquanto pessoa por diversos posicionamentos e companhias questionáveis, porém a situação toda me deixou meio incomodada. Meio não, muito. Porque, assim como aconteceu com ele, a gente já acompanhou discursos parecidos em situações semelhantes, como no caso da Simone Biles, quando abriu mão das Olimpíadas de Tóquio para cuidar da sua saúde mental.

Existe vida por trás da fama.

(Foto: Reprodução/Globoplay)  

A gente está tão acostumado a associar essas pessoas aos seus trabalhos, que parece que elas são só isso, que a vida delas se resumem apenas a este recorte, quando não é bem assim. Da mesma forma que nas nossas vidas, além do trabalho existem os relacionamentos, a família, os amigos, existem os outros sonhos, os estudos, as outras escolhas, assim acontece com eles também.

E, na verdade, todo esse discurso de entrega e produtividade a qualquer custo também nos afeta, só que com famosos as proporções aparentam maiores – mas, no fim das contas, tem preço para a saúde mental? Nesse quesito, somos todos iguais. Se perdermos a saúde, não vai restar muita coisa.

Falei, falei, mas sei como mudar as coisas? Não exatamente, porque acho que não existe solução simples para problemas sistemáticos e estruturais, mas sei que tudo começa pelo respeito. Não só por ele, como também pela empatia. Precisamos aprender a discordar das coisas sem precisar massacrá-las, principalmente tratando-se de saúde e de saúde mental.

A gente já vive em um ambiente tão complicado para lidar com transtornos psicológicos, pois tudo é sempre invalidado, já que ninguém anda com o atestado de depressão/ansiedade/borderline/etc colado na testa, né? Problemas na saúde mental não possuem um rosto, então se não nos rotulam, não conseguem nos ver. E, mesmo com diagnósticos, se não for palpável e visível, é difícil acreditar que existe. Então, por conta de toda essa hostilidade que já existe naturalmente – e infelizmente – é que deveríamos ser mais empáticos.

Com famosos ou com aquele vizinho que só você conhece.

Que a gente olhe para pessoas interrompendo sonhos e projetos em prol da saúde mental com compreensão, reconhecendo a coragem de abrir mão daquilo, e não tentando enfraquecer aquela atitude. E que esse seja um papo para além do “Setembro Amarelo”, por exemplo, pois empatia, respeito e cuidado consigo mesmo e com o outro não deveria ter data de validade.
Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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