Praias, histórias fictícias e casas emprestadas: qual o saldo da pandemia para o intimismo no pop?

(Imagem: Taylor Swift/Divulgação. Lorde/Divulgação. Harry Styles/Better Homes and Gardens.)


Querido diário que não é diário,


Quando a pandemia de covid-19 forçou o mundo inteiro a ficar dentro de casa, a arte foi o combustível que todos precisavam para se manter minimamente sãos durante tempos tão difíceis.


Algumas pessoas aproveitaram o período para reassistir e voltar para obras favoritas da vida que passavam a sensação de conforto e de lar. Outros foram atrás do maior número de coisas novas possíveis. Mas algumas experiências culturais foram coletivas como, por exemplo, os lançamentos novos de artistas de quem já éramos fãs.


O ano de 2020 nos presenteou com obras primas do pop como Women in Music Pt. III das irmãs HAIM e o estrondoso SAWAYAMA, primeiro álbum de estúdio da britânica Rina Sawayama. Entretanto, esses dois  álbuns têm em comum o fato de serem relíquias de um mundo pré-pandêmico.


(Foto: Rina Sawayama/Hendrik Schneider)


Assim como os produtores musicais que junto com artistas pop como Dua Lipa, apostaram que 2020 seria um ótimo ano para o lançamento de um álbum feito para as pistas de dança, esses trabalhos foram vítimas de um acaso, de um “bad timing”. 


Todos esses discos foram criados em um contexto e em um mundo que não conhecia a covid-19. A construção deles veio de um contexto antes do isolamento social.


E se você leu até aqui esperando que eu fosse citar como contraponto para esse cenário, o Folklore de Taylor Swift, acertou em cheio. Escrito, feito e lançado durante a pandemia, ele será lembrado como um dos grandes momentos da cultura pop daquele período. Não só por tudo que envolve a sua criação, mas pelo seu conteúdo em si.


Folklore é um álbum introspectivo, discreto, intimista e simples no melhor sentido da palavra. Todos esses adjetivos podem ser utilizados como auxiliares do que vêm à mente de uma pessoa quando ela pensa em isolamento. Mas falar qualquer coisa sobre o oitavo álbum de estúdio de Taylor Swift a essa altura do campeonato seria chover no molhado.


Porque existe um outro ponto que ele e outros discos que ainda aparecerão por aqui têm em comum: serem sucessores calmos de “irmãos mais velhos” barulhentos e coloridos.  É um efeito natural da cultura como um todo que haja uma “calma após a tempestade” no quesito estético e conteudístico da arte. O oposto também.


Logo após o lançamento do psicodélico e experimental Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), os Beatles apresentaram ao mundo um retorno às suas origens do rock e do blues com o sóbrio Abbey Road (1969). Na virada dos anos 60 para a década de 70, a música popular brasileira veria o minimalismo da bossa nova dar lugar a explosão sensorial e colorida da Tropicália. E para voltar ao território do pop, em 2016, Lady Gaga deixou para trás os excessos e entrou na sua era country com Joanne. A capa deste álbum é o mais próximo que a mother monster chegou de tons pastéis e simplicidade na sua carreira.


(Foto: Beatles em imagem de divulgação do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Bland/Apple Corps)


Colorido e preto e branco, neon e bege, alto e baixo… A história da música parece ser feita de revezamentos, ações que geram reações opostas não tão imediatas assim. A pandemia parece ter sido responsável por mais uma delas:

A da introspecção que sucede a exposição. 


E foi assim com Taylor. Mas também com Lorde e Harry Styles. De maneiras muito diferentes, os três tiveram uma sucessão de álbuns muito semelhante. Deste trio, um foi extremamente bem sucedido, outro falhou e um terceiro ficou no detestável meio termo. Mas quem é quem nessa história?



Lover vs. Folklore 


(Imagem: Capas do Lover e do Folklore)

Após o bagunçado, por vezes lúcido, mas eternamente de baixa qualidade Lover (2019), Swift lembrou da força que a sua composição tinha e fez uma viagem a um gênero musical irmão do seu já conhecido country. 


É importante ressaltar que esse “ressurgimento” do folk dentro do pop não é de responsabilidade dela. Lana Del Rey com o seu Norman Fucking Rockwell (2019) merece os créditos por ter sido um catalisador desse gênero nos dias de hoje.


Esteticamente, Folklore também é tudo que Lover não foi. Enquanto o primeiro tinha um encarte e fotos de divulgação majoritariamente em preto e branco, produção simples e lista de faixas toda em letras minúsculas, o segundo foi anunciado ao mundo com ME! e lembrava algo que poderia ter saído de uma cena de um filme da Barbie.


Lover parecia um “esforço forçado” de Taylor para se distanciar do peso de Reputation. Como tudo que ela toca é ouro, isso não afetou o lado comercial do lançamento: seu álbum arco-íris bateu recordes de venda e streamings ainda em 2019. 


Folklore foi  sucessor de uma chuva neon, do “eu” em letras maiúsculas e trouxe um mundo em preto e branco forçado pelo isolamento, contando histórias fictícias. Mas acima de tudo: ele é fruto de uma introspecção forçada por um cenário maior do que quem o criou.


O que não é o caso do Solar Power.



Melodrama vs. Solar Power


(Imagem: Capas do Melodrama e do Solar Power)


O segundo álbum de estúdio de Lorde, Melodrama (2017) é um dos raros casos de obras que já nascem clássicos. Paradoxalmente, é muito mais dançante e triste do que o seu antecessor minimalista, Pure Heroine (2013), o que também parece ser outro caso de revezamento no pop.


Um trabalho como esse inevitavelmente cria uma pressão enorme para que o artista faça algo novo à altura. No caso de Lorde, os intervalos considerados longos entre os seus discos não ajudaram na criação da expectativa por parte dos fãs e também dos críticos.


A neozelandesa parece ter lidado com isso em sua famosa viagem para a Antártica, onde percebeu que sentia tanta falta do calor e do sol, que resolveu criar todo o conceito de um álbum em cima disso.


Se comparado ao Melodrama, Solar Power (2021) pode ser considerado minimalista. Seu irmão mais velho trouxe uma narrativa de “chorando enquanto danço”, muito bem executada em tudo que o rodeava. As próprias fotos promocionais contavam essa história, através de cores neons e balões de hélio coloridos.


Solar Power levou a jovem que ficou famosa por só usar preto e batons escuros à praia. Sonoramente, parecia ser um primo mais novo de outros trabalhos pandêmicos como o próprio Folklore e Chemtrails over the Country Club (2021). Mas a sensação de intimismo aqui veio de uma escolha da própria Lorde, com a sua viagem ao Polo Sul da Terra para fugir das futilidades e assédio da indústria que ela tanto parece odiar.


Este é um ponto importante para estabelecer um dos motivos para o fracasso de Solar Power. 


Pure Heroine, na sua utilização constante do pronome “nós”, trazia experiências coletivas de jovens que cresceram longe dos centros de desenvolvimento estadunidenses e europeus. E Melodrama era mais um clássico álbum de término e sofrimento dentro da música pop (quer tema mais universal que este?).


Lorde se consolidou nos seus trabalhos que falavam sobre as inquietudes e sofrimentos de um coletivo que nem sempre se sentiu representado. Com o seu terceiro disco, ela deixou essa tendência de lado, refletindo experiências particulares dela que nos eram totalmente distantes. 


Até nos momentos em que cantava sobre algo que poderia ser relacionável isso foi presente: Lorde vivenciou a pandemia na Nova Zelândia, um país que lidou responsavelmente com a covid-19 e teve um retorno à "normalidade" mais rápido que o resto do mundo.


A introspecção do Solar Power é particular e fruto de uma decisão da artista. É por isso que, quando comparada a outros trabalhos semelhantes lançados no período, parece artificial.


E por falar em artificial…



Fine Line vs. Harry’s House


(Imagem: Capas do Fine Line e do Harry's House)



Desde o título, Harry’s House (2022) já demonstrava o caráter pretensioso do seu autor: uma referência a uma música de mesmo nome da lenda do folk Joni Mitchell. Se era atenção que Harry Styles queria, ele conseguiu. Já que até o perfil oficial da canadense no Twitter reconheceu o esforço do ex-One Direction.


A questão é que o isolamento e a profundidade desse trabalho param por aí. No título mesmo. O pop anêmico das canções feitas durante a pandemia tenta emular a sensação de intimismo anunciada pela referência a uma canção clássica do folk, mas falha. No quesito qualidade, a casa do Harry está mais para um porão.


Quando a voz de As it was se gabava pelo apoio de Stevie Nicks e não era discreto na sua inspiração vinda de Fleetwood Mac e David Bowie, seu trabalho era muito mais convincente.


Fine Line (2019) trouxe cor, soft rock, frutas e pop de qualidade. Era de se esperar que alguém que já havia entregado referências bem trabalhadas conseguisse emular isso mais uma vez. O que não aconteceu. 


O minimalismo de Harry’s House permaneceu no superficial e não atingiu o que Swift conseguiu com Folklore: um sentimento genuíno de recolhimento de um artista.


A quebra do colorido para o mutado não se transmitiu em outras camadas além do que a gente vê. E o resultado foi um trabalho que, se perdesse 5 faixas da sua tracklist, seria muito mais bem sucedido em sua proposta.



O que vem aí? 


Muito se especulava sobre qual seria a marca que a pandemia deixaria na produção musical. Pelo jeito, o bucolismo e o escape para um local mais discreto foram as sensações que dominaram as tendências estéticas e sonoras do período.


Tanto que, artistas que vinham de trabalhos dançantes, coloridos e extravagantes, entregaram obras calmas, em bege e minimalistas durante o isolamento social (ou influenciadas por ele). A pergunta agora é como a música refletirá a reabertura e a saída dos tempos da covid-19.


Por enquanto, temos alguns prenúncios do que poderá refletir esse momento. Álbuns como Motomami (Rosalía), Crash (Charli XCX) e Renaissance (Beyoncé), todos lançados em 2022, parecem ser um suspiro de “finalmente” com suas canções animadas e feitas para casas noturnas.



(Foto: Rosalía/GQ/Jack Bridgland)


Será a alegria do retorno do contato o marcador da música pós-pandêmica? Ainda é cedo para dizer.


O que já podemos definir a partir desses trabalhos, entretanto, é que o pop está oferecendo mais um revezamento: o da solidão introspectiva para um coletivo festeiro.



 

Rayssa Oliveira
Rayssa Oliveira

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