Resenha literária: Um Lugar Bem Longe Daqui (2019)


(Foto: Divulgação)

Alguns livros dialogam conosco de uma maneira tão especial que, em algum momento, você deixa de conseguir expressar o porquê se encantou tanto com ele, e ele só passa a ser parte de quem você é. Eu me sinto assim com “Um Lugar Bem Longe Daqui”, da Delia Owens. O título é traduzido do nome original em inglês, que é “Where the Crawdads Sing” – que, literalmente, significa “onde os lagostins cantam”, fazendo referência a uma frase mencionada no livro.

O livro, que foi lançado em 2019 pela Editora Intrínseca, logo se tornou um fenômeno em comentários e engajamento nas redes sociais, considerando o mundinho bookstan. Devido a isso, não demorei muito para me render a sua leitura, já que sou, acima de tudo, uma grandissíssima curiosa.

A protagonista da história é Kya, uma criança de seis anos que é abandonada por sua família em um brejo, em meados da década de 1950. A primeira pessoa a ir embora é a sua mãe, vítima de um casamento fracassado e abusivo. Depois de “Ma”, cada um de seus irmãos também a deixa, incluindo Jodie, o mais velho. Kya cresce com o pai bêbado, que em dado momento também para de voltar para casa, e aprende com o pântano a sobreviver. A falta de afeto é um dos fios condutores da trama, que tem a solidão como enfoque, usando o abandono familiar e um assassinato como pano de fundo.

Depois que a família vai embora, Kya precisa aprender a se virar e, dentre todas as coisas que passa, precisa também passar despercebida pela cidade. Parecia uma missão fácil enquanto estava longe das ruas e lojas, mas assim que aparece no centro, todos notam e julgam “a menina do brejo”. Logo, não seria spoiler dizer que ela se torna a principal suspeita do assassinato depois que o corpo de Chase Andrews, um rapaz influente da cidade, é encontrado no pântano em 1969.

Mas, ela tem um álibi.

Deixando de lado a questão da morte do personagem, o livro usa de narrativas do passado e do presente, entre a década de 1960 e de 1970, para contar sua história. Vemos não só o abandono de Kya, como suas relações com os outros, com o brejo e a natureza, com a cidade, com a vida. E uma das coisas mais bonitas de toda essa história é exatamente isso, o desenvolvimento da vida (da protagonista e do seu ao redor) enquanto tudo parecia indicar um caminho diferente.

É um livro sobre solidão, no sentido mais cru e cruel da palavra, porém também é um livro sobre existência. Sobre sobrevivência.

Várias e várias vezes eu senti que o livro falava comigo, de certa forma, com frases como “a vida a havia transformado numa especialista em esmagar sentimentos até que ficassem de um tamanho possível de guardar” ou “já tinha dado uma chance ao amor; agora queria apenas preencher os espaços vazios. Aliviar a solidão enquanto erguia um muro em volta do coração”.

Têm muitas críticas que levam em consideração as condições “irreais” de uma criança sobreviver sozinha em um brejo, sem convivência com outras pessoas, mas eu sou do time que acha que a autora soube desenvolver bem essa questão. Por alguns anos, ela não esteve 100% sozinha (tal qual a Juliette), pois o pai bêbado permaneceu em casa, fazia algumas coisas e, em alguns dias, até se mantinha sóbrio.

E, mais do que isso, as cenas do passado mostram que ela teve que “crescer” na marra aprendendo por observação com a mãe e seus irmãos (e às vezes na base da lembrança) como cozinhar, como ligar o motor do barco, entre outras coisas. Sem contar que ela consegue, ainda que muito pouco, o apoio de pessoas como Tate Walker (que ensina ela a ler), o pai dele e o “Pulinho”, uma espécie de lojista e frentista de um posto de abastecimento de barcos que nutre por Kya um amor paternal – e é recíproco.

(Inclusive, Pulinho é descrito como um homem negro no livro e isso se manteve na adaptação. Eu amei! <3)

Conseguimos ver a Kya superando as adversidades, sofrendo, lidando com as emoções, crescendo e encarando todos os questionamentos da adolescência e da chegada na vida adulta sem suporte e vibramos quando ela realiza grandes feitos. Inteligente e sensível, a protagonista nos cativa ainda na infância e como a família que ela nunca teve, nos sentimos responsáveis por chegar até às páginas finais garantindo que ela ficará bem.

Foi um livro que fez muito sentido para mim na época em que eu o li e talvez por isso eu seja tão apegada a ele. Gosto da forma como Delia transformou a solidão em algo palpável, com toques de romance e também de mistério, evitando que a narrativa se tornasse chata e monótona.

A autora consegue traduzir bem como os traumas familiares são responsáveis por nos moldar ao ponto de definir como lidamos com outras relações afetuosas na nossa vida, mostrando a importância de crescer em um ambiente saudável, com amparo e, acima de tudo, presença.

(Foto: Divulgação/Sony Pictures)

O livro ganhou adaptação para os cinemas, que estreou ontem, sob a produção de Reese Witherspoon e sua empresa, a Hello Sunshine.  Foi, inclusive, através da atriz que a obra ganhou notoriedade, através de seu clube do livro. Confesso que desde que eu soube que seria adaptado, estava ansiosa e ainda não assisti, mas assim que tiver a oportunidade, estarei nos cinemas – com medo de terem estragado, diga-se de passagem. Quem interpreta a Kya é a atriz Daisy Edgar-Jones, de Fresh.

O filme já chegou vencendo também, pois tem música exclusiva da Taylor Swift na trilha sonora. Pode entrar, “Carolina”.

Nota: 10/10
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Ano: 2019 (1ª Ed)
Editora: Intrínseca
Páginas: 336

Alguns trechos preferidos:

“Como tudo o mais no universo, nós despencamos em direção àqueles que têm a massa maior.” (p. 186)

“Sabia que não era por Chase que estava chorando, mas por uma vida inteira de rejeições.”

“Preciso viver sozinha. Mas eu já sabia disso. Já sabia faz tempo que as pessoas não ficam.” (p. 212)

“Os rostos mudam com as agruras da vida, mas os olhos continuam sendo uma janela para o passado(...)”
(p. 231)

“Ninguém precisa me dizer como isso muda uma pessoa. Eu vivi isso. Eu sou o próprio isolamento.” (p. 236)

“Acho que algumas coisas não podem ser explicadas, só perdoadas, ou não. Não sei a resposta. Talvez não exista resposta.” (p. 237)

“Vamos ser honestos, muitas vezes o amor não dá certo. Mas, mesmo quando fracassa, conecta você aos outros, e no fim isso é tudo que você tem: conexões.” (p. 240)

“No momento mais frágil de sua vida, ela recorria à única rede que conhecia: ela mesma.” (p. 281)


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Beatriz de Alcântara
Beatriz de Alcântara

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