Ser e esTár: o clássico e o contemporâneo nas dinâmicas de poder.

(Foto: Divulgação/ Universal Pictures)

Pontualmente, este texto foi escrito sobre o decorrer da Sinfonia N° 5, de Gustav Mahler, apresentada no festival de Lucerna em 2004, regido pelo então maestro Claudio Abado. Tudo isto para comentar sobre o filme Tár, que estreou nos telões no início deste ano e foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme.

Tár é mais do que uma narrativa que aponta os aspectos da vida de um artista. Na verdade, o filme, dirigido por Todd Field, é uma ferramenta para trazer ao público uma visão de um casamento com uma carreira; neste caso, o processo doloroso do divórcio. 

Lydia Tár, personagem protagonizada por Cate Blanchett, é uma exímia maestrina de carreira invejável. Dona da titulação EGOT (termo usado para artistas que possuem o ciclo dos maiores prêmios da indústria cultural: Emmy, Grammy, Oscar e Tony), ela também é escritora de um autobiográfico e realizadora de diversos feitos musicais. A construção da personagem gira em torno do seu ápice de sucesso, que é a titulação como diretora da Orquestra Filarmônica de Berlim, e o início dos ensaios para a gravação da 5ª sinfonia do maestro Gustavo Mahler.

Em um universo luxuoso, você facilmente consegue ficar envolto, e muitas vezes perdido, na perspectiva de Lydia, como se a mesma te arrastasse pro caos contínuo que é a vida de uma artista cujo limite de perfeição é palpável. O telespectador consegue sentir de longe a métrica da perfeição nas primeiras cenas do filme. Poderia ser a história de ascensão e queda de qualquer um, por isso a narrativa nos aproxima.

Mas como no decorrer dos tempos é perceptível que certos comportamentos de personagens ditatoriais são previsíveis, o cenário muda gradativamente quando Tár não consegue mais fugir das consequências de seus atos. No filme, Lydia é acusada de assédio sexual e abuso de poder com uma de suas ex alunas, que devido ao boicote de carreira e destruição emocional proporcionados pela maestrina, acaba cometendo suicídio.

Até então, Lydia tenta disfarçar as evidências, empurrando todos os problemas para sua secretária Francesca, que tem muito mais conhecimento dos fatos, pois além de ter feito parte do ciclo de amizades do passado, ela conhece a vida da maestrina. É interessante prestar atenção nos posicionamentos de Francesa e o quanto ela também é manipulada por uma oportunidade que nunca chega. E quando sua última gota de esperança é derramada pelo aparecimento de uma protegida, Francesca joga tudo para o ar e deixa a história correr freneticamente.

É extremamente necessário pautar a vida pessoal de Tár, pois seu senso de controle escapa para todos os âmbitos. De um casamento muito contratual e pouco harmonioso, Lydia construiu uma família com Sharon, que combinando ofícios, ocupa o cargo de Spalla na orquestra. As duas possuem uma filha juntas, mas o relacionamento familiar é constantemente afetado pela personalidade déspota de Tár e, com isso, a criança sofre diversos problemas que durante a narrativa são banalizadas. 

(Foto: Divulgação/Universal Pictures)

É interessante notar que a cultura do cancelamento foi abordada intensamente nesse filme, onde cada gancho vai se encaixando até a desordem natural tomar conta da vida de Lydia. Não só isso, mas a percepção da questão da relatividade quando há uma inversão papéis relacionados a toxicidade de poderes nas relações de gênero. O filme traz um olhar sutil de que, quem comete não está ligando muito para a situação do outro, e sim para o desencadear na sua própria vida. Síntese do egoísmo. 

Por fim, como todo filme protagonizado pela Cate, conseguimos notar vida no personagem, e não uma mera interpretação. E neste, em especial, a sensação que ficamos é que Lydia a todo momento está prestes a nos olhar e incitar qualquer regra; pegar a sua batuta e controlar tudo e a todos na mesma sincronia. Unindo todas essas observações, é impossível não passar horas refletindo após o término do filme. 

O mesmo rendeu muitas críticas, inclusive uma delas de Marin Alsop, maestrina e diretora da Orquestra de Baltimore, citada em uma das primeiras cenas do filme, o definindo como “anti-feminista”, posição esta contrariada pela própria Cate que alegou a narrativa se tratar sobre poder e não questões de gênero. Mas como essa discussão está longe de terminar, e nem deve, é necessário deixar o espaço aberto para novas opiniões e discussões sobre o filme e seus desdobramentos provocados nos telespectadores, sobre todas essas dinâmicas que envolvem arte e poder. 


Nota: 9/10


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Andressa Cristina
Andressa Cristina

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